Suplemento Literário do Minas Gerais

Everton de Paula

"Morta, serei árvore, serei tronco, serei fronde, e minhas raízes enlaçadas às pedras de meu berço são as cordas quebradas de uma lira. Enfeitai de folhas verdes a pedra de meu túmulo, num simbolismo de vida vegetal. Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos." Nada tão profético quanto estes versos da poeta goiana - Cora Coralina. Se estivesse viva, amanhã, dia 20 de agosto, estaria completando 100 anos de idade. 
Quem sabe, no exato momento da criação deste poema, ela não teve a certeza de tocar o coração de seus leitores para sempre? Quem sabe, Cora não sentiu uma das flores do cerrado, um sempre-viva, que reluta contra o tempo e é por ele contemplada? Quem sabe, as comparações de sua existência com a terra, os vegetais, como neste verso: "Sou a voz da terra e sou a própria terra. Sou a gleba, eu sou o tronco, eu sou raiz, eu sou folha, eu sou graveto, eu sou tudo isto... não explicaria seu desejo de eternidade, seu apego à vida aqui entre nós?

Até sua morte, aos 96 anos, jamais confidenciou sua data de nascimento, tanto que em cada entrevista, ou mesmo comentário sempre trazia consigo uma idade. Certa vez perguntei-lhe qual o motivo de tanto mistério em esconder a verdadeira conta de seus anos. Ela respondeu, como sempre de maneira poética: "Sou a mulher mais antiga do mundo, a mais velha de todas. Posso ter a idade da terra, ou melhor, trago comigo todas as idades." A única pista dada por ela: "Sou do século passado, antes da República."
Cora foi uma mulher lendária de Goiás, mulher sertaneja, mulher de pés no chão. Contava seu cotidiano em versos, passava receitas de seus doces como se estivesse tecendo um poema. "Faça doce com amor, com fruta, com o tacho de cobre no fogão de lenha. Nem muita água, nem muito açúcar, mistura tudo isso com muita inteligência. Vá graduando no fogo, escorra a calda. Apure essa calda, mais um bocadinho no fogo. Vá despejando as porções no prato ou travessa rasa. Vá passando os pedaços de frutas cozidas em calda. Deixe esfriar. Levante a tampa. O doce está pronto. Sirva-o com amor e inteligência!"
  A Revelação

Sua vida poética teve início aos 14 anos de idade. Seu sonho era ser poeta. Apesar do primário incompleto, já escrevia versos que as pessoas taxavam de poesia em prosa. Pode-se considerar Cora Coralina precursora do Modernismo em Goiás, apesar de ter marcado sua presença poética no início do século. Dizia: "Me libertei da minha dificuldade poética depois de 22. Não porque eu acompanhasse aquele movimento. Naquela época eu estava muito envolvida com a sobrevivência de meus filhos. Era uma doméstica. Até hoje não sei explicar como estava tomada por aquele movimento modernista". Segundo ela, só aderiu mesmo à poesia quando foram abolidas a rima e a métrica. Para ela, tinha que ser uma forma de expressão livre, natural e autêntica. "A poesia espiritual e a imaginária estão superadas. Hoje, o poeta que fugir da realidade não terá sequer leitores, porque a poesia está indissoluvelmente ligada à realidade. Onde há vida há poesia."
Seus poemas mostram, com orgulho e objetividade de um mestre, a literatura goiana, o além das fronteiras de seu Estado, a vida difícil do homem do campo, da mulher simples e calejada, da mãe cheia de filhos, dos delinqüentes, dos garimpeiros, dos sem-terras, do índio, do comportamento dos jovens, da velhice, da solidão frutífera, das desigualdades provocadas pelo próprio homem, dos que não sabem escrever, e daquelas que ela chama de "minhas irmãzinhas", as prostitutas... "Vive dentro de mim / a mulher da vida / Minha Irmãzinha... / tão desprezada / tão murmurada... Pisadas, espezinhadas ameaçadas. Desprotegidas e exploradas. Ignoradas da lei, da Justiça e do Direito". Não deixou também de falar dos fatos históricos e geográficos, dos costumes de sua gente, dos padrões sociais de determinadas épocas. Tudo isso compõe a pequena obra de Cora Coralina, muito relevante para a literatura brasileira.

Com uma maneira muito especial de comungar palavras, Cora Coralina revelava sua mensagem, agradando a todos. Ela dizia:  "a poesia é feita para todas as idades, haja vista o quanto sou procurada por pessoas de idades e graus diferentes."
Entre seus temas prediletos, a ligação forte com a terra. Ao perguntar o porquê desse seu atavismo, Cora responde: "Os humildes, os pequenos, os que trabalham e nunca dizem: "Estou cansado." Nunca ouvi de um trabalhador que toma a enxada às seis horas da manhã e larga ao pôr-do-sol dizer: "Estou cansado" Nunca! Nunca ouvi uma mulher da roça sobrecarregada de trabalho de manhã até a noite dizer: Estou cansada." Não! São fortes, humildes, pobres e mal pagos, mas guardo deles uma impressão maravilhosa. Eles me ensinaram o pouco que sabiam. Todos os meus livros, toda minha vida é amor à terra. Se eu não tivesse amor pela terra, não poderia dizer: "Eu sou a terra, eu sou a gleba"...
Tudo isso significa mais do que amor: uma identificação profunda com a terra e todos aqueles que nela vivem. E disso eu me orgulho, eu me sinto forte, me sinto em segurança, me sinto com a coragem de dizer: Eu sou um mulher da terra".
 
  Necessidade Vital

Segundo a poeta, a poesia foi primeiro comunicação. Depois sublimação da vida porque só um gênio cria. Mas só quem escreve, sabe recriar a vida. A poesia para ela era um ato visceral. "É um impulso que vem de dentro e se eu não obedecê-lo me sinto angustiada."
Se essa impulsão lhe tomasse os sentimentos por alguma coisa tida como inútil, como o caso do lixo, ela não se esquivava em fazer seu registro. Assim escreveu certa vez: "O que é o lixo? O lixo é vida. De onde vem o lixo? O lixo vem da terra, e para onde ele tem de voltar? Para a terra. O lixo é pouco aproveitado, ele também é poesia. Que se saiba procurar a poesia no lixo. Lixo é vida, portanto é só procurar a sua poesia. As coisas nojentas, repulsivas, também são vidas. É uma fermentação vital; Ali, há milhões de germes na transformação da matéria orgânica. E digo mais: quando vir um monte de lixo, veja além do monte de lixo. Veja nele, por exemplo, o seu sorvete de morango, tão bonito, tão colorido, de sabor tão suave".
Com essa maneira diferente de encarar a vida e colocar sua experiência em versos, Carlos Drummond de Andrade escreveu sobre a poeta goiana: "Cora Coralina é a pessoa mais importante de Goiás. Mas do que o governador, as excelências parlamentares, os homens ricos e influentes do Estado". Quando se tocava nesse elogio, ela discordava logo: "Eu sou mesmo é a maior doceira de Goiás, isto sim, eu concordo". Doceira foi uma de suas profissões durante muito tempo. E quem teve a oportunidade de saborear seus doces em Goiás Velho - antiga capital de Goiás - dizia sentir o mesmo sabor encontrado em seus versos.
De alguns colegas, críticos e admiradores, ela recebeu as mais variadas comparações: o poeta Paulo Bonfim a considerou a maior poeta brasileira; o crítico Oswaldino Marques comparou seus versos com os da poeta chilena - Prêmio Nobel - Gabriela Mistral, ou Rosália Castro, e foi mais além: "Ela seria uma espécie de Walt Whitman interiorano, de cabeça e saia. Para o jornalista Severino Francisco, "semelhanças poderiam ser apontadas também com Pablo Neruda, em versos como este: "Perdão se quando quero / contar minha vida / é terra o que conto". 
Em sua casa, às margens do Rio Vermelho, bem no coração da antiga Vila Boa, hoje Goiás Velho, ela recepcionava a todos com muita presteza, principalmente os jovens. Esse interesse tinha uma explicação: "...O jovem me procura por um motivo, procura uma fonte de afirmação, otimismo, uma palavra autêntica, sem ter consciência disso. Não sou pessoa de talvez. E tampouco de mentiras. Se não posso dizer a verdade por inteira, digo a meia-verdade. 
Sua casa hoje está silenciosa, à beira do Rio Vermelho na antiga Capital do seu Estado. "Minha porta é aberta. Quem entra é amigo; não costumo perguntar o nome, apenas pergunto de onde vem e espero que me traga alguma mensagem. E todos me trazem". Assim e muito mais, Cora Coralina, a vida feita em poesia.
  De Coralina, considerações

Ser feliz depende única e exclusivamente de cada um.
O divórcio é como uma pessoa doente que procura o remédio errado. Sou antidivorcista, mas não julgo quem é a favor. Só sei de uma coisa: Para um casamento dar certo, noventa por cento depende da mulher.
Sexo antes do casamento?
Faça isso quem quiser, mas em todos os casos, quem sempre sai perdendo é a mulher, pois ela fica marcada, enquanto que o homem não. Se até encontrar o parceiro ideal ela faz muitas experiências, as marcas serão mais profundas.
Nunca fico satisfeita com aquilo que escrevo. Sempre acho que sou capaz de escrever melhor. A minha poética é a poética da insatisfação.
A morte é a solução?
...não sei não; só vejo essas mulheres querendo emprego em repartição pública. Nunca vi uma mulher na construção, nos andaimes, nos elevadores provisórios...
...a gente vai visitar os outros, a televisão está ligada e a atenção fica dividida entre o aparelho e a pessoa. Sem diálogo a amizade acaba.
...ninguém faz confissões completas porque a gente tem medo de três coisas: dos vivos, dos mortos e de nós mesmos...
Não há nada mais belo que a solidão, porque a gente pode enchê-la. Minha solidão é fecunda., tenho o mundo do faz-de-conta.
A violência foi sempre do mundo em todos os tempos. Agora ela se apresenta pior, porque o número de indivíduos aumentou muito. De modo que, proporcionalmente, é a mesma coisa.

  Estas Mãos

Olhe para estas mãos
de mulher roceira,
esforçadas mãos cavouqueiras.

Pesadas, de falanges curtas,
sem trato e sem carinho.
Ousadas e grosseiras.

Mãos que varreram e cozinharam
Lavaram e estenderam
roupas nos varais.
Pouparam e remendaram.
Mãos domésticas e remendonas.

Íntimas da economia,
do arroz e do feijão
da sua casa.
Do tacho de cobre.
Da panela de barro.
Da acha de lenha.
Da cinza da fornalha.
Que encestavam o velho barreleiro
e faziam sabão.

Minhas mãos doceiras...
Jamais ociosas.
Fecundas, Imensas e ocupadas,
Mãos laboriosas.
Abertas sempre para dar,
ajudar, unir e abençoar.

Mãos de semeador...
Afeitas à sementeira do trabalho.
Semeando sempre.
Jamais para elas
os júbilos da colheita.

Mãos tenazes e obtusas,
feridas na remoção de pedras e tropeços,
quebrando as arestas da vida.

Mãos alavancas
na escava de construções inconclusas.

Mãos pequenas e curtas de mulher
Que nunca encontrou nada na vida.
Caminheira de uma longa estrada.
Sempre a caminhar.
Sozinha a procurar, o ângulo prometido,

a pedra rejeitada.


  Aninha, feiticeira do verso

Ana Lins dos Guimarães Peixoto, poetisa de algumas gerações goianas, patrimônio de todas, cada vez mais se converte na genuína expressão de beleza poética que Goiás oferta a toda a família brasileira. Cora Coralina, goiana, feiticeira do verso, singela e pura em seus cantares, flor do chão, nascida da terra, rescendendo ao húmus fecundo que faz nascer o milharal; sempre nova como nova é a vida que lhe crepita no cansado corpo, abrigo passageiro no espírito de Aninha, há tanto nascida em casa verso e em cada poema que lhe brotam do interior.
Aninha rica de lembranças de gerações vetustas, rica de estórias, tantas vezes recontadas pelos ancestrais.
Ana-Cora, Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Goiás, doutora feita pela vida, pelo estudo incessante de tudo quanto aconteceu em seu derredor. Doutora que apenas cursou os anos da escola primária, mas que jamais deixou de aprender e assimilar conhecimentos, de gerar, no verso, o fruto nobre que traz a lume sempre novos conhecimentos nem sempre na fala fria do racional, mas, invariavelmente, no verso prenhe de emoções e de verdades colhidas no processo de fecundação direta entre a emoção do artista e a mais profunda realidade das coisas, dos fatos e das pessoas.
Cora Coralina, doutora dos becos da vida, das classes da experiência cotidiana, aprendeu de tudo quanto vivenciou as lições mais entranhadas no âmago da natureza.
(Maria do Rosário Cassimiro da UFG).