Suplemento Literário do Minas Gerais

O poeta amazonense Thiago de Mello, em visita a Belo Horizonte, conversa com o jornalista Everton de Paula a respeito de seu poema Estatutos do Homem e revela situações em que o poema foi criado, enquanto comenta cada um dos estatutos. Em seguida, Thiago de Mello conta sua atuação no Chile, quando adido cultural naquele país, e sua amizade com Pablo Neruda, em cuja residência morou por algum tempo.
A beleza de alguns poemas faz com que a sua nacionalidade se perca no espaço e, por conseguinte, sua mensagem ultrapassa os limites de qualquer fronteira e os torna universais. É o que acontece com O Estatuto do Homem, de Thiago de Mello, considerado um dos mais representativos poetas da Literatura Brasileira contemporânea.

  Entrevista à Everton de Paula

THIAGO DE MELLO nasceu em Barreirinha - pequena cidade de apenas 1500 habitantes, em plena selva amazônica - (24 horas de embarcação de Manaus). Quando lhe perguntaram por que ainda morava lá, ele, descortina em suas palavras o afeto àquela região: "Voltei para lá, logo depois de minha chegada do exílio, na Alemanha. Vivo lá não só para escrever, como também, reparto um pouco da minha vida, da minha esperança, com aqueles seres tão abandonados, esquecidos. Aprendo mais com eles do que eles comigo."

Autor de mais de três dezenas de livros, em vários países, ele se diz bastante satisfeito em viver modestamente da sua palavra escrita e falada: "Talvez seja eu, o único desta geração que esteja vivendo desta forma."

Só o Estatuto do Homem foi publicado em mais de trinta idiomas. A propósito, sua história revela a sua existência de poema do mundo. O poema nasceu no Chile, tão logo Thiago leu o primeiro ato institucional da revolução de 64: "Escrevi esse poema pensando no meu povo, sobretudo no destino do homem".
De imediato, pediu sua renúncia de Adido Cultural. Enquanto não chegava a resposta, "eu infligia as instruções da embaixada, recebendo todo brasileiro perseguido pela ditadura". Chegando ao Brasil, foi preso, porque declarou à imprensa chilena: "Voltarei ao meu País para lutar junto aos meus irmãos, pela liberdade". Foi exilado e seu poema tornou-se um lema em favor da dignidade, da liberdade, não só dos brasileiros, mas daqueles que vivem sob a batuta da ditadura.
Na Índia, o poema de Thiago foi declamado (no idioma hindu) para uma multidão de 100 mil pessoas, que, a cada fragmento demonstrava clamor emocionado, durante o primeiro Encontro de Paz, realizado naquele país. "Notei no clamor dos meus irmãos a compreensão da minha mensagem", diz o poeta.

Nas Nações Unidas representou o Brasil num encontro de pensadores e poetas do mundo inteiro, por ocasião da discussão da catástrofe nuclear. No final desse encontro, seu poema foi lido e reproduzido na abertura do livro documental do acontecimento. Recentemente, este mesmo poema foi declamado por Thiago na abertura dos trabalhos da Constituinte, acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Brasília.
Um de seus últimos trabalhos foi a tradução de obras do poeta cubano Nicolais Bilen. Agora, Thiago encontra-se elaborando textos para um livro alemão, livro de fotografias de crianças do mundo inteiro.

Nesta entrevista, Thiago faz uma reflexão sobre o Estatuto do Homem, fala de sua amizade com Pablo Neruda, o Prêmio Nobel de Literatura.

O Editor.

  Estatuto do Homem

Artigo I - Fica decretado que agora vale a verdade... vale a vida e que de mãos dadas trabalharemos todos pela vida verdadeira". Como é a sensação do autor, que decreta verdades como estas, num planeta, onde a atmosfera que o envolve, é de pouca autenticidade, de renegação à vida? Como você se sente nesta busca?

Sinto que cabe ao povo lutar contra a mentira oficial, a mentira de cada dia, impondo, assim, o império da verdade. Mas esse trabalho não depende, somente de mim, nem de ti; depende do empenho solidário de todos.

Artigo II - Nesse item você decreta, que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas," dão "o direito a converter-se em manhãs de domingo". Bem, a tendência inicial dos constituintes parece demonstrar um avanço no campo social, a começar pela redução da jornada de trabalho, sem perda salarial. Caso essa proposta venha a constituir-se em decreto, o trabalhador terá mais "manhãs de domingo" para juntar-se à família, não?!

O trabalho, hoje, na sociedade capitalista, constitui uma forma de degradação, do homem, pois ele se sente explorado. Quando acontece isso, o trabalho passa a significar sofrimento. Agora, não há fonte mais geradora de alegria. Sobretudo, essa alegria é notada nas "manhãs de domingo", onde o trabalhador se junta à sua família.

Artigo III - Os girassóis, conforme as leis da natureza, abrem sob a luz do sol. Nessa estrofe você proclama o direito de os girassóis se abrirem na sombra, é possível?

A vida é um campo de milagres! Em alguns momentos, a gente se perde na escuridão da vida. Se aí houver uma floração de reflexão, os girassóis produziram a luz de que necessitam.

No final deste artigo lê-se "... as janelas devem permanecer o dia inteiro abertas para o verde onde cresce a esperança." Que esperança é essa?

Quando perdemos a esperança, dá-se aí o começo do envelhecer. Olha, o sinal mais terrível da minha volta do exílio foi encontrar jovens de 20 anos envelhecidos, enquanto temos jovens de 90 anos, como Sobral Pinto e Barbosa Lima Sobrinho. Por que a jovialidade destas figuras? Elas mantêm a esperança na transformação da sociedade humana.

Artigo IV - Percebe-se que você é como um cavaleiro que traz a bandeira da esperança: "o homem não precisará nunca mais duvidar do homem". Entretanto, é necessário, segundo esse artigo, que um confie no outro, "como a palmeira confia no vento, como o vento confia no mar, como o ar confia no campo azul do céu"...

Nesse império de enganos, há sempre uma esperança. Depois de um período duro de ditadura, não surgiu a Lição de Tancredo Neves dando origem a elaboração de uma nova carta constitucional? Ela, a esperança, chaga devagarinho, possibilitando-nos voltar a acreditar no próximo. A minha principal esperança, pela qual eu luto com as minhas palavras, com a minha vida, é de, pela capacidade nossa, ver no homem um irmão.


 

Parágrafo único: Aqui você acredita que um homem dará credibilidade ao outro, como o menino confia em seu amigo. A confiança na infância tem matizes da verdade?

Quando o homem é capaz de um gesto fraterno (solidário, de praticar bondade, de acreditar no outro, de enamorar-se, de sentir o gostoso abraço do amor), ele readquire, neste exato momento, o poder da infância. Nota como um menino acredita sempre no outro menino?

Artigo V - "O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo, porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa." Segundo você, poesia não se explica, mas esse verso merece um esclarecimento seu...

Nesta entrevista que chamaria de pioneira, é a primeira vez que estou tentando fazer uma coisa impossível, explicar esse poema, ir na raiz, para reinterpretar poeticamente o significado da vida. O homem sentar-se à mesa com seu olhar limpo, quer dizer, ele conseguiu a refeição com a alegria do seu trabalho. A verdade chega antes da sobremesa, isto é, e,e pode enxergar nos olhos de sua família, de seus amigos, a alegria de comer sem sofrimento. Sofrimento de tantos, como crianças que adormecem com fome.


Foto: Divulgação

Artigo VI - O profeta Isaías escreveu, e você espera a chegada do belo dia, em que o "lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora." Essa comunhão não é utópica, para uma sociedade capitalista, onde a luta de classes é uma realidade?

Tenho recebido críticas de vários países, dizendo que este poema é utópico. Alegam que jamais dentro de uma situação de luta de classes - que realmente existe - isso possa acontecer. A transformação da sociedade fraterna vai surgir da oportunidade de que todos - dominantes e dominados - possam coabitar num processo, onde cada um faça sua parte. Aquele que hoje é considerado lobo, deixa de o ser e passa a ser um irmão do homem, e não do lobo. Que todos se unam no trabalho para construir uma sociedade mais digna de ser vivida.

Artigo VII - Este artigo decreta a permanência da "justiça e claridade". Levanta, também, a bandeira da alegria para desfraldar "na alma do povo". A luz de Cristo bem poderia clarear o caminho da justiça dos constituintes, não?

Também acho! Para isso os constituintes terão de tomar uma atitude de bom senso, colocar seus interesses pessoais em segundo plano, passando os direitos do povo para o primeiro lugar.

Artigo VIII - A dor mais dolorosa do ser humano, segundo esse artigo, é não poder dar amor a quem se ama. Para quem esteve no paredão da morte, para ser fuzilado, como você, continua admitindo essa dor como a que mais amedronta?

Continuo acreditando cada dia mais nisso. É doloroso gostar de alguém e não poder dar amor. Amargura maior, se manifesta quando o amor é incapaz de impedir que uma criança morra de fome, de assistência. Existem formas diferentes de amar, mas são muito dolorosas, quando não pode amar quem se ama. Dói muito, principalmente, no meu caso, quando a coisa que mais amo é o ser humano.

Ainda nesse artigo, você faz "saber que é a água que dá à planta o milagre da flor." Qual a ótica sentimental, vista por você, na devastação ecológica do seu Estado, o Amazonas?

A Amazônia tem sido a imagem do século, como objeto da cobiça internacional. Tanto o capital gerado dentro do País, como o capital estrangeiro têm promovido a devastação desumana da floresta amazônica. Usando meios insensatos, tão violentos, porque desconhecem cientificamente a qualidade de seu solo. Minha visão é profundamente de tristeza, não só pelo prejuízo ecológico, mas também pela vida do caboclo amazônico.

Não bastasse o desmatamento; as perfurações petrolíferas sem um plano adequado na preservação da fauna e flora, a poluição dos rios (bebendo o mercúrio dos minérios - principalmente nos Estados do Pará e Rondônia), as estradas (que só favorecem o contrabando das reservas minerais, animais e vegetais), o comércio desclassificado da Zona Franca de Manaus, vem concorrendo, lamentavelmente para a degradação da natureza nesta região. Como se não bastasse, surge agora a denúncia (pelo jornal de Belém - O Liberal) de que a região amazônica corre o risco de ser ainda, o depósito de lixo radioativo de Angra I. É o fim do pulmão do Mundo?

Alguns homens podem ser incompetentes, insensatos, podem ser dominados pela vocação de destruição, pela capacidade de potência negativa; não acredito serem tão loucos a ponto de gerarem a destruição do Planeta de uma só vez. Mas a tendência natural, de acordo com bases científicas, e de que a radioatividade se dirige para os pólos, provocada pelos tantos problemas internacionais, e a Amazônia, perdendo sua capacidade geradora de oxigenação, pode chegar a uma catástrofe. Prefiro não ser daqueles que incluem, entre as profecias, a transformação da Amazônia em um deserto.

Artigo IX - "Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura." Você sente alguma aproximação desse artigo com as propostas apresentadas pelos constituintes, quando esta se refere ao capítulo do direito do trabalhador e da liberdade do cidadão?

Como já disse, o trabalho é a grande fonte de alegria. Se o trabalho cerceia a liberdade não recompensando o homem com salário que permita dar alegria à família, ele passa a ser uma fonte de desalegria. O pão de cada dia, servido à mesa, deve trazer o sabor da satisfação do trabalhador, que é conquistado com dignidade do suor de seu corpo, sem deixar de lembrar a ternura que ele tem de servir à sociedade. Se realmente a Constituinte tiver essa mentalidade, seus autores estarão construindo uma sociedade mais justa.


Foto: Divulgação

Artigo X - "Fica permitido a qualquer pessoa, a qualquer hora da vida, o uso do traje branco." Você só é visto sempre de traje branco. Por que essa paixão pelo uso do branco?

Gosto do branco, acho bonito, sinto-me bem vestido, me dá sensação de limpeza, encontro nele o desejo de paz. Depois, é adequado ao nosso clima. Quando criança, era o sinal da elegância, a manifestação de festa, o traje domingueiro. Vale todo tipo de interpretação, até de pai-de-santo já me chamaram.

Artigo XI - Foi definido "que o homem é um animal que ama"; por esta razão foi qualificado neste artigo de belo, e até mais belo "que as estrelas da manhã." Quando li esta estrofe, lembrei-me de um diálogo de um casal num filme: Você é um animal!!! O outro respondeu: Não! Não sou um animal. Sou pior, sou da espécie humana..." será que o homem é um animal tão feroz, assim?...

A essência desse verso me faz relembrar uma conversa do Gênesis, uma passagem entre Deus e Noé. Deus disse: Noé, nunca mais vou destruir a humanidade. Cheguei à conclusão de que o coração do homem se inclina para o mal". Eu me permito discordar de Deus, e dizer que a índole humana se inclina para o bem, para o amor. A sociedade feroz, o sistema injusto, a mal convivência, leva o homem a ficar amedrontado, e o torna agressivo. A capacidade da dignidade do homem está na condição mais bela, que é o amor. Nem o céu estrelado, nem a força das galáxias se compara a tal beleza. Acredito mais na energia do amor do que na energia do desamor.

Artigo XII - Fica decretado "que nada será obrigado nem proibido. Tudo será permitido". No parágrafo único, logo em seguida desse artigo, você estabelece que a única coisa proibida é "amar sem amor". Quando é que a humanidade estará apta a viver nesse paraíso?

A partir de hoje, desde que o homem não finja o amor. Atualmente, as relações são marcadas pelos interesses, pelo ganho, pela cortesia, pelo protocolo. O dia em que a relação humana for marcada pelo respeito, ela estará pronta para essa vivência.

Artigo XIII - "...o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs..." O dinheiro é a mola mestra da nossa sociedade, ele compra tudo.
Ele desgraçadamente compra tudo. Desde a amizade - que é falsa, interesseira -, à convivência - o casamento. Suponho que o homem seja capaz de tudo o que vale dinheiro, porque é fácil. Agora, o que é difícil não se compra.
O artigo final quer dizer que a palavra liberdade não precisa, necessariamente estar na boca das pessoas, nem constar nos dicionários; basta que "a sua morada será sempre o coração do homem?"

Refiro-me à liberdade convencional usada na linguagem dos ditadores. Eles se esquecem de que liberdade não é um ato individual. Ela é fruto de uma convivência. A verdadeira liberdade só existe quando ela não prejudica o outro. Portanto, o homem necessita carregá-la, sempre consigo.

 

Minha amizade com Neruda

Como foi seu relacionamento com Neruda?

Conheci Neruda aos 30 e poucos anos, apresentado por Jorge Amado, na Livraria São José do Rio de Janeiro, em 1960. Ao cumprimentar-me disse dois versos meus. Foi uma satisfação! No ano seguinte fui nomeado Adido Cultural na Embaixada do Brasil no Chile. Quando me encontrei novamente com Neruda, em Val Paraíso, fui recebido com muito carinho e ele me convidou a passar aquela noite em sua casa. No domingo, passamos o dia todo juntos. Convidou-me a morar em sua casa em Santiago, uma bela residência, aliás, Neruda tinha vocação para arquitetura. Era o seu sonho. Aceitei o convite. Pagava eu, evidentemente, um aluguel de amigo, durante quatro anos. Nosso exercício de amizade foi de grau mais elevado. Estávamos sempre juntos, trocando idéias, viajando, cozinhávamos, brincávamos e traduzíamos poemas um do outro.

Desse relacionamento, surgiu alguma influência?

Não considero que tenha recebido influência literária de Neruda, embora conhecesse toda sua obra, inclusive poemas inéditos. Recebi, sim, grandes lições, como abolir o hermetismo do meu trabalho. Mostrou-me o dever de falarmos o idioma poético ou literário acessível, sem perder o compromisso com a arte, com o belo. Do ponto de vista literário, essa terá sido a melhor lição recebida dele. No plano humano, aprendi que a amizade é a mais alta forma de amor.

Ele, o Neruda, costumava cortejar os amigos?

Neruda sabia criar alegrias para seus amigos. Se descobrisse os seus desejos, logo procurava satisfazê-los. Gostava de festas: no seu aniversário, convidava cerca de 100 pessoas. Ele mesmo se propunha a fazer as fantasias para cada um dos convidados. No reveillon, os participantes eram poucos; só os amigos mais íntimos. Tive a aventura de participar delas.

Foram só maravilhas ou houve momentos de divergências entre vocês?

Evidentemente! Nem todas as lembranças são alegres, o que é próprio da convivência humana.

Veja na íntegra o Estatuto do Homem