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Texto e fotos de Everton de Paula |
Os índios xavantes vêm-se desempenhando bem na
agricultura, contrariando as idéias dos portugueses, que quiseram forçar os
índios a trabalharem na lavoura de cana-de-açúcar, alegando que eles não
possuíam condições de fazer os trabalhos de plantio. Hoje, talvez com a
facilidade e modernização das máquinas, os xavantes estão se destacando nas
atividades agrícolas, principalmente no cultivo do arroz. Assim, evitam a
invasão de suas terras. Nos dias atuais, os xavantes tiveram que trocar a
flecha e o arco pelo trator, caminhão, semeadeira, arado, colheitadeira,
apoderando-se, assim, de suas terras antes que sejam perdidas para grandes
latifundiários. Os xavantes desempenham bem este tipo de
trabalho. Demonstram ser bons comerciantes, e este é um dos fatores principais
que favorecem o seu espírito comunitário. Dentro de pouco tempo, os xavantes
terão seu destaque na agricultura. A alimentação dos xavantes sofreu muitas
mudanças.
O futebol é um esporte de que os xavantes gostam muito. Aliás, são bons de bola. Tive a oportunidade de assistir a uma jogadinha de futebol na aldeia de Sangradouro, em Mato Grosso. Eles são leais e habilidosos nas jogadas. Chutam forte e correm muito dentro de campo. Cabeceiam na hora certa e, quando passam a bola para seu companheiro, não perdem tempo para se colocarem em locais de fazer gol. Gostam de chutar para fazer gol, às vezes, de grandes distâncias. São verdadeiros craques numa acrobacia com a bola, deixando alguns craques boquiabertos.
Uma das manifestações importantes do povo
xavante é a Corrida do Buriti, um ritual com fins de lazer. Ocorre, geralmente,
no final do dia, depois de todos terem voltado da caça, pesca ou dos mutirões
na roça. Presenciei uma dessas corridas na reserva de
Sangradouro, no Mato Grosso. Ela não tem dia marcado e se desenvolve da
seguinte maneira: os atletas, de comum acordo com o cacique, escolhem dois
elementos para buscar no mato duas toras de madeira, pesando de 60 a 90 quilos
cada uma. __OOO... OOO... OOO... OOO... OOO... OOO... Nessa corrida, não notamos atitude alguma de competição entre os grupos. Apenas muita alegria e brincadeira por parte dos participantes e assistentes. No final, tudo é motivo de muito riso.
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Os xavantes acreditam que as estrelas são olhos
de pessoas que nos contemplam todas as noites. Um índio xavante, certa noite, admirando o céu,
que estava muito estrelado, viu, de repente, uma estrela diferente das outras:
brilhava mais, piscava muito e parecia inquieta. O índio se enamorou da sua beleza.
Cansado de olhar para o alto, adormeceu. A estrela notou que o seu admirador havia
adormecido. Resolveu descer até a Terra e transformou-se numa linda moça. __OHH!!!... __Quer ir comigo? Os dois permaneceram no céu por algum tempo.
Porém, como o índio era muito obediente, sentiu-se na obrigação de avisar
seus pais aqui na Terra.
O urubu não é tão carniceiro assim como achamos. Conta a lenda xavante que um urubu, passeando pela floresta, no Mato Grosso, viu um caçador estrebuchando no chão. Ele tinha sido abandonado pelos seus companheiros, porque estava com o corpo coberto de furúnculos. Os urubus pousaram ao seu redor e viram a dor que aqueles homem estava sentindo. Levaram o homem até o céu e lá o curaram. Retornando à terra, os urubus pousaram o caçador numa roça dos xavantes, deixando-o lá. Os índios espiaram e correram para ver o que estava acontecendo. O caçador, feliz, doou aos xavantes uma muda de batata-doce que trouxera do céu. Os índios plantaram a batata que é, hoje, fonte de alimento deles e do homem branco. Essa tribo vive, hoje, em algumas aldeias da
Reserva Indígena do Araguaia, situada na maior ilha fluvial do mundo, a Ilha do
Bananal, em Goiás, na divisa com o Mato Grosso. A aldeia de Santa Isabel é uma das maiores,
contando com aproximadamente 300 índios. Ali, está instalada uma escola do
Primeiro Grau, com professores brancos e carajás, que são responsáveis pela
aprendizagem dos índios, que estudam Português, História, Língua Carajá,
Estudos Sociais e outros assuntos. O monitor é o próprio cacique, que se chama
Idjarrúri.
Entre os carajás, quem escolhia o marido para a filha era a mãe. Hoje muitas mudanças foram feitas, por causa do contato com o branco. Existem três formas de casamento para os carajás: o arabié, o cotá ou birená, e o exiderotê. 1) O arabié é o casamento tradicional, desejado
pelas famílias; muito honroso. É realizado com cerimônia em que a família da
moça é quem toma a iniciativa dos preparativos. O noivo, para provar que está
disposto a casar, deverá, três dias antes do casamento, sair bem cedo para
pescar. No fim da tarde, sua canoa deverá estar abarrotada de peixes para
presentear o sogro. Isto acontecendo, ele é esperado na beira do rio e levado
nos ombros dos índios até a casa da noiva. Este é um comprovante de que está
apto a assumir um compromisso matrimonial. O marido terá que trabalhar para o
pai de sua esposa, caçando, pescando ou plantando.
As artes indígenas, mais representativas, são
as esculturas em madeira ou barro. As imagens reproduzem lendas, costumes,
animais e ainda o próprio índio, destacando o corpo atlético e bem enfeitado.
Os índios mais velhos ocupam posição de
destaque dentro da sociedade Carajá. São respeitados e respeitam os mais
novos. Quando os idosos falam, todos ouvem com atenção, seguindo suas idéias,
pois já viveram e aprenderam a vida, tendo sempre razão.
Devido às estradas que estão sendo abertas nas
imediações, os pescadores e caçadores, sem a menor preocupação de
causar-lhes mal, vêm fornecendo-lhes cachaça, entre outros vícios. Sempre são encontrados corpos de índios boiando
no Rio Araguaia. Eles atravessam o rio para São Félix do Araguaia e adquirem
pinga com a maior facilidade. Embriagados, tentam voltar para a aldeia e acabam
virando a canoa e morrendo afogados. A LÍNGUA CARAJÁ Conforme os membros do Summer Institute of
Linguistics, o alfabeto carajá tem 26 letras (sendo divididas em 14 consoantes
e 12 vogais).
Na numeração cardinal dos carajás, a pronúncia sofre algumas alterações nos sons. Exemplo: Como se escrevem: 1 - sohoji; 2 - inatxi; 3 - inatão; 4 - ianubiowa; 5 - iruyre; 6 - deboo sohoji; 7 - deboo inatxi; 8 - deboo inatão; 9 - deboo inaubiowa; 10 - deboo itue. Como se pronunciam: de acordo com as sutis alternâncias sonoras, foram transcritas em sua forma de representação fonológica. 1 - sorrodí; 2 - inati; 3 - inatão; 4 - inaubioá; 5 - irure; 6 - debô sorrodí reiró; 7 - debô nati reiró; debô natão reiró; 9 - debô inambioá reiró; 10 - debô itué. Pequeno vocabulário carajá: nadi - mãe Nomes de índio carajá: Ihytyrie - Hãtunaka - Hãdoi - Kaitui - Ibutuna - Mabulewe - Xirikeru - Kohãti - Mabiora - Maruadia - Tuila - Timari - Krumaré - Ohori - Diolorina - Ixerua. Essa dança não tem data marcada,
é realizada em noite enluarada, sendo um dos rituais mais bonitos dos carajás.
Recebe esse nome por causa de um peixe do Rio Araguai, considerado sagrado. Em
noite de lua cheia, os índios evocam o peixe aruanã, pedindo-lhe muitos
peixes, boa caça e farta colheira.
Você já viu a floração de um
ipê amarelo? É lindo. E isso acontece na primavera. A árvore parece estar
coberta de folhas banhadas de ouro. Na Ilha do Bananal, principalmente
nas periferias das aldeias dos carajás, são encontradas muitas dessas
árvores. Os índios carajás elegeram o ipê
como símbolo da liberação do luto. Ou seja, quando morre alguém na aldeia, a
alegria volta a reinar somente quando começa a floração do ipê. Quando morre um carajá, a tristeza
toma conta da aldeia, principalmente dos familiares mais íntimos.
Segundo a lenda, os Carajás
habitavam um túnel subterrâneo. Um dos carajás sentiu-se mal e saiu do túnel
para vomitar. Após ter melhorado, andou por perto da boca de sua moradia. Achou
favo de mel, provou, gostou e levou um pouco para seus companheiros. Todos se
deliciaram com o mel. No outro dia, o carajá
voltou,arrancou mais mel e provou da mangaba. Entusiasmado, levou tudo para o
túnel. Todos comeram e gostaram. Aí, todos queriam vir para fora do túnel,
provar as delícias que o mundo oferecia. É assim que a lenda carajá conta o
surgimento da sua tribo:
Os índios carajás, ao se
ausentarem de sua aldeia para as costumeiras caçadas, recomendavam às esposas
que não saíssem da aldeia. No início, a ordem era cumprida.
Mas, depois de algum tempo, as esposas desobedeceram os índios. Esperavam que
eles saíssem e partiam em direção ao Rio Araguaia para apanharem ovos de
tracajá (espécie de tartaruga pequena). Um belo dia, o filho do cacique,
muito curioso, seguiu os passos de sua mãe. E a viu conversando com um
desconhecido. Intrigado, ele pensou: quem será? Logo descobriu que era o Cananxiué,
o famoso deus dos carajás. Passado algum tempo, sua mãe
apareceu grávida. E deu à luz a uma linda menina, a mais bela já nascida na
aldeia. O marido, intrigado com aquela
situação, passou a maltratar a esposa. __Não saia de casa antes que eu
chegue.
Com a baixa das águas do Rio Araguaia, as mulheres carajás descobriram uma linda lagoa. Moravam lá muitos jacarés, mansinhos e tristonhos. Numa manhã bem ensolarada, as mulheres, escondidas de seus maridos, saíram em direção ao lago. Os maridos não gostavam de ver as esposas passeando sozinhas, temendo que elas fossem raptadas pelos toris, que significa homem branco. Chegando à lagoa, as mulheres viram os jacarés quentando sol. Com a chegada das mulheres, os jacarés caíram n'água. Então, as índias sentaram na beira da lagoa, com os pés dentro d'água e cantaram: __Ih!... rôrôrô jacaré, por que
você é tão triste? De repente, muitas borbulhas se
formaram à flor d'água. Eram os jacarés que chegavam de mansinho. As índias, enfeitadas de penas
coloridas, corpo pintado de urucu e jenipapo, cheirando a óleo de pequi,
agradaram os jacarés, fazendo cafuné neles. Enquanto eram acariciados, as
índias faziam seus pedidos: Arutâna, o grande caçador da aldeia carajá, gostava de caçar sempre à noite. Numa noite, sentado no cupim esperando ouvir o ruído dos animais, adormeceu e sonhou. Sonhou que tinha feito uma grande caçada. De repente, acordou com um clarão e viu um vulto. Era o filho do feiticeiro da floresta. Logo, ele perguntou ao índio: __Quem é você? O índio perguntou. __E você, como se chama? Depois de conversarem bastante, os
dois chegaram à conclusão de que poderiam ser amigos. Arutâna contou como ele
tinha medo de Inãni, o bicho da floresta. __Minha mãe me banhava no rio,
colocava-me na rede e cantava:
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Ao índio, aquele que acreditou na Terra de Santa
Cruz e hoje me faz pensar e agir no seu destino...
A minha avó, que me ensinou a amar nossas
raízes.
Sônia Maria Viegas Andrada
Diana de Vasconcellos Faria Tavares
Márcia Megda Cesarini
Lélia Márcia Dias
Maria Onolita Peixoto Catão
Helena Vasconcellos
Maria Helena Araújo dos Santos
Célia Leocádia de Andrade
Sérgio Maldonado
Pascoal Maldonado
Pascoal Motta
Márcio Alonso Lima
Magda Lenard
Maria Lídice Faria Travesso Gonçalves
Eleni Cássia Vieira
1. "A Verdade sobre os Índios
Brasileiros", Rio de Janeiro, Guavira Editores, 1981.
2. "A Arte Indígena Brasileira", 28 de
abril a 31 de maio de 1983 - Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes, 1983
- Catálogo de exposição.
3. COSTA, Maria Heloísa Fénelon - A arte e o
artista na Sociedade Karajá. Brasília, Funai, 1978.
4. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, Ed.
Civilização Brasileira, 1979.
5. RIBEIRO, Darcy. "Os Índios e a
Civilização". Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1970.
6. DIÉGUES JR. Manuel. "Etnias e Culturas
no Brasil", Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1977.
7. FELÍCITAS. "Danças do Brasil", Rio
de Janeiro, Ed. Tupy, 1958.
8. GREGÓRIO, José Irmão. "Contribuição
Indígena ao Brasil". Belo Horizonte, União Brasileira de Educação e
Ensino, 1980.
9. Iny Tyyriti, Iny Tykyriti. Cartilha Carajá,
Summer Institute of Linguistics, Brasília, 1981.
10. "Legislação Indígena
Jurisprudência". Brasília, Ministério do Interior, Funai, 1983.
12. MAIOR, A. Souto. "História do
Brasil", São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1970.
13. MARTINS, Edilson. Nossos Índios Nossos
Mortos, Rio de Janeiro, Ed. Codecri, 1982.
14. PARAÍSO, Maria Hilda Baqueiro.
"Relatório Hãhãhãi", Porto Seguro, 1976.
15. QUEIROZ, J. F. Xavante: Como Manter o Orgulho
de Ser Índio na Tribo do Trator? Interior, 7 (35): nov./dez. 1980.
16. PATAXÓ arco e lanças de pilha, também.
Interior, 7 (35): nov./dez.
17. Revistas de Atualidades Indígenas,
Brasília, Funai, 1970, Vol. I e II.
18. TUDO - dicionário enciclopédico ilustrado.
São Paulo, Abril Cultural, 1979.
19. VARANGNAC, André. O homem antes da escrita.
Rio de Janeiro, Ed. Cosmos, 1963.
BOSCH - Gimpera. A América: paleol[itico e
mesolítico. In: O homem antes da escrita. Rio de Janeiro, Ed. Cosmos, 1963.
20. Índios no Brasil e Presença Missionária.
(Brasília) Cime, 1982. Mapa.