Quando a imigração japonesa completou 80 anos no Brasil, em São Paulo, capital, fez-se uma festa comemorativa muito bonita, mostrando sua cultura e as adaptações que obtiveram com a nossa convivência: na alimentação, música, poesia, literatura, enfim, em todos os segmentos...

Fui cobrir o evento. Deslumbrado, percebi a forte colaboração e influência que "nossos irmãos nipo-brasileiros" tem nos dado; basta lembrar o quanto a comida japonesa se popularizou entre nós. Eu, como gosto de cozinhar, volta e meia percebo que o prato que estou fazendo tem um toque dos pratos criados lá no Japão. Quem ainda, pelo menos, não provou o frango xadrez, o macarrão na chapa com legumes e shoyo (hoje tão popular nas festas do interior), as frutas empanadas ou carameladas, o peixe cru, o arroz com ovo batido, etc... Até as cabeças das "moçoilas" já sofreram influência dos famosos pauzinhos. E eles, por sua vez, também sofreram interferências de nossa cultura miscigenada. Veja: os pastéis e as esfirras (de influência árabe), tão populares na nossa cultura ganharam espaço nas suas lanchonetes. Se fossemos enumerar as interferências culturais durante esses 95 anos de imigração japonesa, que ora se comemora de sua vinda para o Brasil, relacionaríamos uma lista enorme.

 

O desemprego aumentou muito com o fim do período feudal no Japão. Com uma população crescendo e bastante numérica, o governo se vê em uma situação delicada. A vida começa a ficar insuportável. O governo decide incentivar a saída dos cidadãos para outras regiões. Para facilitar a sua intenção, cria a Companhia Imperial de Imigração. Como exemplo podemos citar a primeira embarcação - o navio Kassato Maru - para o Brasil. Sua chegada se deu em 18 de junho de 1908, trazendo os primeiros japoneses para o Brasil, dando início a uma aventura em um país distante e de cultura totalmente diferente da sua. Esses imigrantes tinham um destino já definido: as fazendas de café do interior paulista. Contratados, eles eram enviados para as plantações cafeeiras do Estado e região litorânea ao longo da estrada de ferro Santos-Juquiá.

Aqueles que permaneceram nas áreas rurais passaram a diversificar a produção dos hortifrutigranjeiros. Outros se estabeleceram na periferia da capital paulista.
Em apenas 4 anos (1910 a 1914), chegaram ao Brasil cerca de 14.200 imigrantes, dando início à dezenas de comunidades japonesas. De 1925 a 1935 o país recebe um fluxo muito grande de japoneses - em torno de 140.000, todos vindos em busca de uma nova proposta de vida.

 

Com o advento da 2ª Guerra Mundial, a imigração foi interrompida por 10 anos. Enquanto na Europa eram criados os campos de concentração, aqui no Brasil os japoneses viviam parcialmente, semelhança dos maus tratos do nazismo. Foram vítimas de preconceitos, com a conivência do Estado. Como se não bastasse o sofrimento, surge as ofensas dos compatriotas Skindo Rei Mei - aqueles que defendiam radicalmente sua cultura. Eles consideravam os japoneses que integravam a sociedade brasileira de "traidores do imperador".

Em 1959, os japoneses voltam a se instalar no Brasil, em escala menor. Somente com a recuperação economica do Japão, a imigração foi, aos poucos, diminuindo. O Japão começa a receber incentivos, como entrada de capitais, instalações de grandes empresas e joint ventures, principalmente na área da mineração.

Constam dados na imigração de que 260.000 japoneses deram entrada no Brasil. Hoje já contamos com a quinta geração de descendentes, os gosseis, e a comunidade japonesa já ultrapassou a marca de 1 milhão de pessoas. A maioria se concentra no centro de São Paulo - cerca de 70%. O Paraná vem em segundo lugar com 12%, o Mato Grosso 2,5% e o Pará 1,2%. Os nikkeis estão presente em todos os setores da sociedade brasileira, destacando-se em atividades diversas as que as trouxeram, para cá, como nas artes e na política.

A comunidade nipo-brasileira forma a 2ª maior comunidade repersentada no país, se colocando atrás da comunidade italiana. São 1,5 milhão de pessoas descendentes da raça amarela, como são conhecidos. O embaixador japonês Tadashi Ikeda, num discurso pela ocasião das comemorações dos 95 anos de imigração, promovida pela Aliança Cultural Brasil-Japão, do Paraná disse: O Brasil foi adotado pelos japoneses como segunda pátria e serviu de alicerce à cultura e aos costumes orientais que, por sua vez, tem contribuído para a construção do país.
Tadashi completou: a data marca a amizade entre os dois países.

Hoje, com uma população significativa de descendentes, os filhos dos que vieram estão voltando ao país de origem de seus antepassados em busca de emprego, o mesmo motivo que os trouxeram para cá. E até os brasileiros estão fazenho o caminho inverso, resultado da crise economica dos anos 90, no Brasil. Eles são chamados dekasseguis (brasileiros de origem japonesa) e formam um contigente de 265.962 pessoas de origem brasileira no Japão. O que os atraem são os altos salários, em média de US$1.200,00 - valor que chega a dobrar com horas extras. O volume de dinheiro enviado para o Brasil desses trabalhadores chega em torno de US$ 2 bilhões/ano.

Esta foi a razão do Banco do Brasil ter 25 agências no Japão. É a história se repetindo ao inverso.