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Meu interesse em pesquisar nossa cultura, além do
fato d'eu ser resultado de uma família tipicamente exemplar para mostrar como é
a formação da cultura brasileira. Nossa cultura, costumo dizer, é um "caldeirão"
em efervescência. O resultado taí, mas as mudanças continuam. Abrindo
parênteses, exemplifico: quem trouxe os hortifrutigranjeiros para o Brasil foram
os portugueses, mas quem desenvolveu e colocou a técnica no país, incentivando
a competição,
foram os japoneses e italianos. Quer dizer: as interferências
continuam. Meu bisavô - Carlo Capuccy nasceu em Modena/Itália,
veio para o Brasil no final do século XIX. Ao desembarcar em Santos/São Paulo,
seu nome foi anotado errado, Carmo Capuccy.
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Com 14 anos, analfabeto, veio com seu tio Miguel
Arcanjo fazer a América. Adentraram pelo Estado de São Paulo, dizem ter chegado
até o Paraná. Verificaram que não era nada do que foi passado para eles, na
Itália. Seu tio desanimou e voltou para seu país. Meu avô foi para a região
oeste de São Paulo, casou-se com uma baiana que ele chamava de "bugre" - por ser
descendente de índios (veja no livro Cartilha Raízes Brasileiras - Série O
Índio). Vieram para Itapecerica, em Minas. Ali, nasce minha vó Ladica e outros
irmãos, depois vão para Ibiá/Minas Gerais - antigo distrito de Araxá. Nestas
suas andanças se tornou um carpinteiro respeitado, bastante criativo e depois se
tornou empreiteiro. Minha avó dizia que várias estações de trem de ferro nesta
região tiveram a colaboração dele. Ele fez a vida, tornou-se um homem de posses,
construiu ruas de casas, teve um dos primeiros carros da cidade, deslumbrou-se
com a riqueza... teve tantas e tantas mulheres...
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Contam que aqui em Belo
Horizonte, tinha uma chapeleira famosa, responsável pelas cabeças da alta
sociedade feminina que foi sua amante, ganhando uma casa tipo italiana, na
Lagoinha. Gostava de comer carne seca crua. Quando sol forte aparecia, não saia de
casa por ter a pele e os olhos muito claros. Era um italiano de caráter forte,
bruto, determinado e inteligente. Assim que nasceu seu primeiro neto - meu pai -
ele, autoritariamente lhe deu o nome de Benito Mussolini. Com certeza achava o
"dulce" ditador italiano um exemplo de homem.
Coitado! Os ignorantes também se amam. Ele só
aprendeu a escrever o nome com sua filha "Mariquinha" quando esta completou 25
anos. Sua vida foi como tantas outras: vida privada na Itália, no Brasil de
deslumbramento. Acabou pobre, mas com uma rica história para deixar, e é de
história em história que fazemos a grande história de um povo. Meu bisavô perdeu todo o contato familiar na Itália,
quando estive lá, encontrei placas e informações do sobrenome "Capuccy", em
Roma, inclusive em Ateliês de auto-costura, porém a ligação perdeu-se no tempo e
no espaço.
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Para surpresa de muitos, não foi o Sul e São Paulo
os primeiros a acolherem os primeiros imigrantes italianos. De acordo com
pesquisas do sociólogo italiano Renzo M. Grosselli, a primeira expedição partiu
de Gênova, em 3 de janeiro de 1874, no navio a vela "La Sofia", e a segunda
chamada de "Rivadávia" - ambas de bandeira francesa.
Chamada de Expedição de Pietro Tabachi - nome do
homem que recrutava trabalhadores no norte italiano para virem trabalhar na
primeira colônia criada pelo governo brasileiro, chamada de Nova Trento. E esta
colônia foi no Espírito Santo. Por causa disso, Santa Cruz é conhecida como
berço da Imigração Italiana no Brasil.
O "Sofia" aportou no Brasil em fevereiro de 1874,
com 386 famílias. Oficialmente, contam os relatos ter o Rivadávia aportado em 31
de maio de 1875m com 150 famílias italianas, encaminhadas para Santa Leopoldina,
de onde seguiram para Pimbuí e fundaram Santa Teresa. De 1874 a 1894 foram
sucessivos navios trazendo muitas e muitas famílias para as terras
capixabas. |
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As constantes modificações políticas e econômicas,
na Europa, no começo do século XIX, principalmente logo após as interferências
de Napoleão, o congresso de Viena - 1814-815 - admitiu estados e alianças formas
autoritárias de governos. Assim como a região européia se dividiu, a Itália
também se partiu em Sete Estados soberanos, mais tarde se unificando. À partir
de 1870, graças à Vitor Emanuel II, o Primeiro Ministro Carvour e o
revolucionário Giuseppe Garibaldi. Após o desfecho desta luta, veio o inesperado
- que não foi a paz e a prosperidade. Aí então surgem os batalhões de
desempregados, camponeses perdendo suas terras, a fome aparece de forma
avassaladora.
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Casa
típica de imigrantes italianos no Paraná
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Agravando ainda mais a situação, implanta-se a
Revolução Industrial - era o homem sendo substituído pelas máquinas em busca de
mais rapidez na produção, lucro e perfeição. A solução foi emigrar, buscando
novas alternativas de sobrevivência. Surgem as oportunidades de explorar terras
ricas na América. E o Brasil foi a salvação. Mas a ilusão durou pouco... até
quando o governo italiano, em julho de 1895 proíbe a imigração para o Espírito
Santo. Isto se deu depois que o cônsul da Itália, no Espírito Santo, apontou as
dificuldades pelas quais os imigrantes passavam: má alimentação, abusos
policiais, injustiças, maus atendimentos médicos e escolares, demora na entrega
de terras prometidas, etc. |
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| A história da imigração italiana no sul do Brasil é
recheada de informações que mais parece uma colcha de retalhos. Enquanto,
oficialmente, o Espírito Santo é tido como precursor dos italianos, relatos
feitos no sul, em especial Rio Grande do Sul, conta que não há dúvidas de
registro da presença de italianos no Rio Grande do Sul antes de 1875; o próprio
presidente da província num relato de 1876 apresenta à Assembléia Legislativa,
onde afirma que de 1859 a 1875 entraram 12,563 imigrantes, dos quais 729 eram
italianos. Entretanto, a grande leva de italianos para as terras gaúchas, em
especial para o Rio Grande se deu entre os anos de 1876 e 1877, mantendo-se até
1888 com um contingente de 3 a 4 mil indivíduos, em 1884 cai para algo em torno
de 1 mil; já em 1885, eleva-se para 7600. Com o regime republicano instalado,
propicia a entrada dos italianos, aumentando bastante nos anos seguintes. As
estatísticas revelam chegar em torno de 70% de imigrações italianas, comparada
às outras imigrações, chegando a 84 mil italianos dos 154 mil imigrantes de
outras origens. |
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O nativo
gaúcho e o imigrante italiano fizeram-se bons parceiros ao intercambiar
suas culturas.
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Como disse antes, é uma verdadeira colcha de
retalhos. Há informações diversas. Em São Paulo existem relatos da imigração
italiana ter sido iniciada no ano de 1871. O que acreditamos de ter vindo grupos
isolados, como foi o caso do meu avô. S bem que ele foi catalogado, no Porto de
Santos. Pode ser que o governo só oficializou quando da entrada do Espírito
Santo. São Paulo, para completar este mosaico cultural,
recebe os imigrantes com um objetivo definido: direcioná-los às fazendas de
lavoura de café, no interior do estado. Juntamente com os espanhóis, os
italianos substituíram os negros nas plantações. Assim como aconteceu com os japoneses, os italianos
também sofreram decepções: promessas de terras que não surgiram, salários
baixos, maus tratos, doenças, etc. Muitos foram em busca de novas propostas nos
grandes centros: no comércio e nas fábricas. Exemplo aconteceu com meu bisavô.
Com o tempo os italianos foram influenciando acentuadamente os hábitos
alimentares na capital paulista: o macarrão, a pizza e o vinho foram logo
assimilados e adotados pelos paulistas.
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