Faz mais de quatro anos. Eu trabalhava na Imprensa
Oficial. Naquele tempo o "Suplemento Literário" era semanal e circulava como
encarte no diário oficial do Estado, o "Minas Gerais". Eu fazia parte da
comissão de redatores. Lá, uma vez ou outra, aparecia o jornalista Everton de
Paula, levando suas entrevistas com famosos. Ele era recém-formado em turismo.
Creio que já havia feito também o curso de jornalismo. Ele viveu durante algum
tempo numa tribo de índios. Sempre teve esses rompantes de excentricidade.
Contou-me que observou certa vez um índio jovem à beira do rio, durante mais de
uma hora. O índio quase não se movia; contemplava as àguas, as borboletas, os
pássaros. Não parecia estar triste nem alegre; apenas observava a natureza numa
espécie de arrebatamento inexplicável. Everton de Paula viveu também, numa
comunidade de negros durante dois anos. Não me lembro o nome do país, mas sei
que foi na África. Ele me contava tantas curiosidades que eu nem sabia se eram
fantasias, casos inventados ou se eram experiências reais, casos acontecidos. De
temperamento inquieto, meio estróina, ele não batia bem da bola, sonhava demais.
Lírico, visionário, repetia o relato de contemplação do silvícola, como se fosse
gesto de sabedoria e não apenas atitude cultural. |
| Everton de Paula estava sempre em companhia da colega
Luciene, mas sua namorada era outra jornalista que trabalhava em Brasília. Ele
levava para o "Suplemento Literário" entrevistas com escritores, como o padre
Casaldáliga, Rachel de Queirós e Lygia Fagundes Telles. Ele lia dois ou três
livros do entrevistado ou da entrevistada, bolava as perguntas curiosas, gravava
tudo, depois passava para o papel e me pedia que eu desse uma guaribada no
texto. Muito humilde, sempre bem humorado, ele aceitava meus palpites. Quase
sempre ele trazia as fotos. Bancava o fotógrafo também. Sem mais nem menos,
Everton de Paula some do mapa. Há mais de seis anos que não tenho notícias dele.
E reaparece do mesmo modo: sem mais nem menos. Ele me telefona para contar:
pegou o trem na estação ferroviária em Belo Horizonte e foi conhecer a cidade de
Santa Bárbara. |
|

|
|
Foto:
Fernando Fiuza
|
|
| Durante o trajeto, que durou duas horas e caqueirada, ele foi
pensando sobre os longos pontilhões, dois quais o trem poderia despencar; foi
matutando na escuridão de inúmeros túneis; sentiu-se num vôo imaginário,
lembrou-se dum castelo que viu em Marrocos. Ele chegou a Catas Altas, na região
do Caraça. Comprou uma grande faixa de terra na Vila de Cocais, município de
Barão de Cocais. Construiu o castelinho da baronesa e construiu três tabernas em
estilo medieval. São 20 apartamentos num prédio em forma de arca, a arca de Noé.
É o que ele me diz. Pôs o apelido no conjunto: Pousada das Cores. Não sei se é
verdade o que ele me diz. Só sei que é verdade o que digo: ele me contou tudo
isso. Contou ainda que Guimarães Rosa teria dito que quem sonha é que constrói
alguma coisa. A namorada dele o abandonou, depois de longo tempo de mancebia.
Ela está em Brasília, Ele está sozinho na arca de Noé que nem um bicho
descasalado. |
|
Manoel Lobato escreve no Magazine de terça-feira a
domingo. Crônica publicada em 21 de dezembro de 1999 no jornal O Tempo. |
|