O jornalista e folclorista Everton de Paula conheceu no início dos anos 80 uma fascinante personagem, Vó Carmela, líder da Comunidade Negra dos Arturos, na região de Contagem, a 18 quilômetros do centro de Belo Horizonte. Ao longo de vários contatos, o pesquisador descobriu a fascinante personalidade de Vó Carmela e pôde registrar um pouco do clima da comunidade3 que gravitava em torno dela. Era uma presença forte e carismática. Passava a todos uma experiência quase secular e, com seus ensinamentos, fortalecia as tradições em seu grupo.
Filha de escravos, Vó Carmela nasceu no dia 20 de maio de 1898 e morreu em 4 de novembro de 1982.

Conto publicado na revista Minas Gerais por Everton de Paula
Jornalista - Autor de livros
Belo Horizonte

  O Prazer de Conhecer a Vó Carmela

Aproximava-se o Natal, Vó Carmela sentia a necessidade de limpar a roça. Ela acreditava na lenda que corria de boca em boca: os donos das roças que não as limpassem, deixando-as sujas de pragas ou capim inúteis, tinham o direito negado de beijar os pés do Menino Jesus, durante os festejos natalinos. Castigados, teriam prejuízo na colheita, além de beijarem o João-do-Mato: dono das pragas nas plantações, bicho emperiquitado, improdutivo.

Era sexta-feira, no estalo da noite, Vó Carmela, depois de tecer um pouco no tear, se pôs a matutar na janela. A noite salpicada de doirado roubava o cheiro suave dos lírios do brejo, prova que havia sido amada pelo dia. O céu, saudoso de nuvens, refletia a luz da lua cheia clareando a escuridão.

Ela, com olhar de Nossa Senhora do Espaço, perdida no tempo, dava a entender de viajar sem fim pelos confins do infinito, em busca de solução do seu problema. E antes do curiango anunciar as altas horas, ao fazer sua promessa habitual: amanhã eu vou! amanhã eu vou!... ela rezou:

"Bendito é o Senhor, São Benedito
Fazei com que nossa roça
germine a semente.
Cresça e apareça!
Dai-nos essa graça, que virá de bom grado.
Louvado seja vossa vontade, Senhor!
Assim seja! Amém amém para nós todos..."

Na calada da noite tudo dormia quando o galo cocoricou, avisando o prenúncio da madrugada: qui-qui-ri-qui-qui..., Vó Carmela foi dormir. Antes da noite dar à luz a aurora, a saracura despertou o amanhecer: quebrei três pote... quebrei três pote... Naquele dia, o ritual de Vó Carmela sofreria alterações. Com ajuda do berrante, conseguiu reunir o pessoal da aldeia. Até o padre, passando por perto, foi verificar o chamado.

__ô gente! O Natal vem chegando. A roça foi invadida pelas pragas do João-do-Mato. A solução é arrancar os invasores improdutivos de nossas terras. Uma voz estranha do lado esquerdo da casa se juntou à de Vó Carmela.

__Não deixem suas terras ficarem como tantas outras, servindo de pasto, inaproveitadas.

__É isso aí, minha gente! respondeu Vó. João-do-Mato quer se tornar o grande senhor dessas bandas. Colecionar glebas e mais glebas de terras, enquanto outros tantos vivem sem uma nesga de chão. Desta feita, vem futicar o trabalho dos pequenos agricultores. Mas vamos organizar nosso povo, mostrar ao poderoso que temos direito a uma tutaméia de terra. Somos de paz, queremos apenas plantar e tirar da terra o sustento. A mesma pessoa, portando um crucifixo no peito, não identificada, em meio ao povo, mostrou ser defensora da sobrevivência do homem através da terra:

__A miséria rural anda solta, como o vento corre entre os cerros e campos. Se deixarem, ela aporta aqui também. Aí vocês serão mais um dentre os sem-terras, com destino às cidades grandes na ilusão de dias melhores, - reafirmou ele. Não se esqueça pessoal, de que a terra é um direito de todos, é uma dádiva de Deus. Só que alguns poucos, cegos pela ganância, deixam o egoísmo tomar conta de seu coração.

__Mãos à obra - gritou Zarturo - antes da produção ir pro beleléu e fazer nóis lambir imbeira. Vamos organizar o mutirão, banindo as pragas dos pés de milho, das ramas de feijão, dos pés de mandioca, da cerca e do mourão. Antes lamber do que guspi.

O povo entendeu a mensagem, reagiu logo. De apetrechos na mão: pá, enxada, pregão e foice, reuniram-se sob a sombra da jaqueira. Com o sinal da cruz, Vó Carmela os abençoou:

__Ave! São Benedito, nosso protetor
peça Nosso Pai
água benta e pó bento do vento
Espanta bicho peçonhento
do caminho que fio de Deus
Vai passá...

Sô Parateca, o sanfoneiro sentado no barranco, encumbucado, não conseguia endireitar-se. Induca, filha de Vó Carmela, exclamou: __Êh! Sô Parateca, isso é espinhela caída! Deixa eu fazer uma simpatia, é tiro e queda!

Escaldou um pano branco na água quente de guiné, amarrou em volta do peito dele, sungou de uma só vez. Falando baixinho:

"Barquinho de Nossa Senhora,
que navega pelo mar,
arva a espinhela caída
que caia em seu lugar".

De cochicho em cochicho, diziam: "Viu, ele melhorou. Isto era encosto".

 

(Uma história que me foi contada pela Vó Carmela, acrescida de um pouco de imaginação)