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TUÍLA, A ESPERANÇA DE UMA TRIBO Conto publicado na revista
Amai-Educando por Everton de Paula Eram quase nove horas no meu relógio, quando
soou no alto-falante: "Faltam dois minutos para o ônibus, com destino a
Aruanã, deixar a rodoviária de Goiânia. Passageiros queiram tomar seus
assentos e boa viagem..." Já me encontrava sentado quando apressadamente
chegou uma morena cor de jambo-maduro, olhos lembrando duas doces jabuticabas,
sentando-se ao meu lado. Num relance de pensamento me vi sentado com Iracema,
aquela a que José de Alencar chamou de "a virgem dos lábios de mel". __Vai para Aruanã? Seu silêncio foi a resposta. Tentei cobrar novamente a resposta, mas de maneira sutil ela mudou o rumo da conversa:
__Esse é um dos meus objetivos dessa viagem - disse a ela. Me falaram do Araguaia como sendo o mais famoso do mundo em variedades de peixes exóticos. __Deve ser mesmo, porque sempre aparecem estudiosos estrangeiros por lá. Tem peixe raro como o "Siá" possui uma face só, um só lado da boca e nada horizontalmente, quem vê acha que está morto. __É verdade que tem um peixe que solta descarga elétrica? __É o poraquê! Um choque dele derruba uma pessoa. Tem outros como o Cuiucuiu, ele traz uma bolsinha de leite debaixo das barbatanas. Toda essa espécie está em fase de extinção. O que é uma pena. __O turismo e a pesca são muito divulgados pelo governo, têm contribuído para essa extinção... __Além disso, o desmatamento, as dragas, o mercúrio têm colaborado bastante para matar a vida animal do rio. As praias antes eram gostosas de ficar. Agora em épocas de temporadas, não se agüenta de tanto lixo. Era quase no final da tarde e o sol à distância se punha no cerrado, fazendo gosto a gente olhar. Entrando em Aruanã, perguntei-lhe o seu nome, ela respondeu: "Tuíla". Ela suspira, de saudade, quando o ônibus pára na rodoviária. Nos despedimos. A cidade não oferecia condições de alojamento. Encontrei com o padre da cidade na porta da igreja, comentei com ele da falta de acomodação, ele convidou-me a ficar na casa dos seminaristas. No dia seguinte, a convite do padre, fomos a uma aldeia dos índios carajás, próxima da cidade, na beira do Rio Araguaia. __Vamos lá - disse o padre - você vai ver o retrato fiel da realidade dos índios carajás. De longe pude ver a situação deprimente em que os índios moram: casebres minúsculos, cobertos de plásticos, paredes de lenha. __Bom dia - gritou o padre - avistando o índio mais velho da aldeia - Kaítui. Ele veio ao nosso encontro perguntando sobre a encomenda que a FUNAI ficou de mandar. __Cadê comenda índio fêz FUNAI? De cócoras, Kaítui se colocou diante de nós, num gesto de tristeza. Ficou algum tempo olhando, no silêncio, para o outro lado do rio, como quem viajava para o infinito. __Essa atitude ele tem sempre que os brancos prometem alguma coisa - disse o padre. Chegamos mais próximo da aldeia, para minha surpresa, debaixo de um pé de urucum, vejo Tuíla pintando duas indiazinhas. Desapontada ela levantou arredia e se escondeu numa oca mais próxima. Comentei com o padre sobre Tuíla. __Ela saiu daqui porque não suportou ver o sofrimento de seu povo - disse o padre. Estão querendo tirá-los daqui e mandá-los para a Ilha do Bananal. Essa transferência traria enorme perda para eles, já que os outros índios têm estruturas totalmente diferentes das deles. Aqui eles nasceram, criaram e construíram sua cultura à beira do Araguaia. Tuíla não suportou as pressões, foi para Goiânia. Quando partiu falou: "Vou compreender vida do branco para poder lutar pros nossos direitos." Fomos até onde ela se encontrava. __Como vai Tuíla? cumprimentou o padre. __Bem! Respondeu ela com olhar fixo em mim. Estou trabalhando, consegui passar no vestibular. Ainda bastante tímida e desconcertada, ela nos convida para um passeio até a praia. __Não, disse o padre, vou conversar com Kaítui. Sentados na praia ela comentou: __Não falei pra você da minha condição de índia, porque é duro revelar como vivemos aqui. Depois, as pessoas, na maioria das vezes, têm aquilo que vocês chamam de preconceito. Ser índia numa civilização branca é ser discriminada, como são os negros.
__É uma das causas de você ter buscado o curso
de Sociologia? Tentar entender um pouco essa diferença de raças? __Os direitos dos índios, assegurados no Estatuto Indígena criada através da Lei nº 6.001, em 19 de dezembro de 1973, não estão sendo aplicados aqui! __Olha, esse estatuto garante à nossa gente a posse permanente da terra em que habitamos; reconhece também o direito do índio de usufruir das riquezas naturais e tudo o que nela existir, mas a própria imprensa mostra, diariamente, o branco tomando terra do índio. Branco não respeita direito nosso. Ele arruma tanto papel, tanto carimbo não sei pra quê. A terra não pertence a ninguém ela é da própria terra. Dela nós nascemos, pra ela voltamos. Isso até me faz lembrar a atitude de um cacique americano ao responder ao presidente dos Estados Unidos, quando esse lhe queria comprar as terras de uma tribo indígena: "Como pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Nós não somos donos da pureza do ar, nem do resplendor da água". O que o homem branco tem conseguido com essa voracidade é tornar cada vez mais a terra um deserto. __Conhecendo mais a cultura do homem branco, você acredita facilitar mais as coisas para o povo indígena? E mesmo deixar a tutela da FUNAI de lado?
Não entendo, se respeitamos a natureza, dela tiramos o nosso sustento, não interferimos na cultura de ninguém, respeitamos o direito dos outros, por que somos chamados de não civilizados? __Vamos embora - chamou o padre a uma certa distância - vou celebrar a missa das seis. Tuíla, de cócoras na areia, rabiscava no chão alguns traços que segundo ela, em carajá seria: "Civilizado não entende modo de índio viver". Levantei-me, bati as mãos na bunda, sacudi a areia fina e saímos calados. Fui embora como quem carrega o peso dos erros da civilização branca. |