TUÍLA, A ESPERANÇA DE UMA TRIBO

Conto publicado na revista Amai-Educando por Everton de Paula
Jornalista - Autor de livros
Belo Horizonte

Eram quase nove horas no meu relógio, quando soou no alto-falante: "Faltam dois minutos para o ônibus, com destino a Aruanã, deixar a rodoviária de Goiânia. Passageiros queiram tomar seus assentos e boa viagem..." Já me encontrava sentado quando apressadamente chegou uma morena cor de jambo-maduro, olhos lembrando duas doces jabuticabas, sentando-se ao meu lado. Num relance de pensamento me vi sentado com Iracema, aquela a que José de Alencar chamou de "a virgem dos lábios de mel". 
Seus cabelos eram tal como o romancista descreveu: negros como as asas de graúna. Foi assim que senti aquela bela figura. Com a respiração ainda ofegante ela ficou imóvel tal como um beija-flor parado no ar, até a saída da cidade, quando impaciente lhe dirigi a palavra:

__Vai para Aruanã?
__Sim. Nasci em Aruanã, mas moro em Goiânia.
__Veio estudar?
__Talvez, respondeu-me com olhar firme no cerrado.
__Por que, talvez?
__Primeiro trabalhar, depois estudar.
__Estudar o que?
__Consegui aprovação no vestibular de Sociologia.
__Ótimo! é uma matéria fascinante. Tem algum motivo pra escolha do curso?
__Bom! Tem uma história, nesta escolha. Nossa vivência no passado e no presente, tem me cobrado atitudes para tentar um futuro melhor.
__Não entendi!

Seu silêncio foi a resposta. Tentei cobrar novamente a resposta, mas de maneira sutil ela mudou o rumo da conversa:

__Você sabe qual o significado da palavra Aruanã? É o nome dado a um peixe do rio Araguaia. Ele é considerado sagrado, por quem lhe pede peixe e colheira e ele dá com fartura, para quem merece, é lógico! O Rio Araguaia passa pela cidade dividindo Goiás do Mato Grosso. É muita pena saber o que eles estão fazendo com o rio, depredando suas riquezas. Mas ainda se quiser saber das lendas, dos tipos de peixes, procura os pescadores, eles vão falar da arraia - um dos bichos que mais amedronta eles; vão lembrar o boto, inofensivo, bastante respeitado, por eles, porque salva a vida das pessoas que estão se afogando. O boto tem a cor acinzentada, sua barriga é cor-de-rosa, gosta de acompanhar embarcações, principalmente se ele percebe ter nelas mulheres grávidas.

__Esse é um dos meus objetivos dessa viagem - disse a ela. Me falaram do Araguaia como sendo o mais famoso do mundo em variedades de peixes exóticos.

__Deve ser mesmo, porque sempre aparecem estudiosos estrangeiros por lá. Tem peixe raro como o "Siá" possui uma face só, um só lado da boca e nada horizontalmente, quem vê acha que está morto.

__É verdade que tem um peixe que solta descarga elétrica?

__É o poraquê! Um choque dele derruba uma pessoa. Tem outros como o Cuiucuiu, ele traz uma bolsinha de leite debaixo das barbatanas. Toda essa espécie está em fase de extinção. O que é uma pena.

__O turismo e a pesca são muito divulgados pelo governo, têm contribuído para essa extinção...

__Além disso, o desmatamento, as dragas, o mercúrio têm colaborado bastante para matar a vida animal do rio. As praias antes eram gostosas de ficar. Agora em épocas de temporadas, não se agüenta de tanto lixo.

Era quase no final da tarde e o sol à distância se punha no cerrado, fazendo gosto a gente olhar.

Entrando em Aruanã, perguntei-lhe o seu nome, ela respondeu: "Tuíla". Ela suspira, de saudade, quando o ônibus pára na rodoviária. Nos despedimos.

A cidade não oferecia condições de alojamento. Encontrei com o padre da cidade na porta da igreja, comentei com ele da falta de acomodação, ele convidou-me a ficar na casa dos seminaristas.

No dia seguinte, a convite do padre, fomos a uma aldeia dos índios carajás, próxima da cidade, na beira do Rio Araguaia.

__Vamos lá - disse o padre - você vai ver o retrato fiel da realidade dos índios carajás.

De longe pude ver a situação deprimente em que os índios moram: casebres minúsculos, cobertos de plásticos, paredes de lenha.

__Bom dia - gritou o padre - avistando o índio mais velho da aldeia - Kaítui.

Ele veio ao nosso encontro perguntando sobre a encomenda que a FUNAI ficou de mandar.

__Cadê comenda índio fêz FUNAI?
__Kaítui, respondeu o padre, acho que desviou como das outras vezes, é sempre assim, prometem, mas não mandam.

De cócoras, Kaítui se colocou diante de nós, num gesto de tristeza. Ficou algum tempo olhando, no silêncio, para o outro lado do rio, como quem viajava para o infinito.

__Essa atitude ele tem sempre que os brancos prometem alguma coisa - disse o padre.

Chegamos mais próximo da aldeia, para minha surpresa, debaixo de um pé de urucum, vejo Tuíla pintando duas indiazinhas. Desapontada ela levantou arredia e se escondeu numa oca mais próxima.

Comentei com o padre sobre Tuíla.

__Ela saiu daqui porque não suportou ver o sofrimento de seu povo - disse o padre. Estão querendo tirá-los daqui e mandá-los para a Ilha do Bananal. Essa transferência traria enorme perda para eles, já que os outros índios têm estruturas totalmente diferentes das deles. Aqui eles nasceram, criaram e construíram sua cultura à beira do Araguaia. Tuíla não suportou as pressões, foi para Goiânia. Quando partiu falou: "Vou compreender vida do branco para poder lutar pros nossos direitos."

Fomos até onde ela se encontrava.

__Como vai Tuíla? cumprimentou o padre.

__Bem! Respondeu ela com olhar fixo em mim. Estou trabalhando, consegui passar no vestibular.

Ainda bastante tímida e desconcertada, ela nos convida para um passeio até a praia.

__Não, disse o padre, vou conversar com Kaítui.

Sentados na praia ela comentou:

__Não falei pra você da minha condição de índia, porque é duro revelar como vivemos aqui. Depois, as pessoas, na maioria das vezes, têm aquilo que vocês chamam de preconceito. Ser índia numa civilização branca é ser discriminada, como são os negros.

Acontece às vezes, até pior, alegam que o índio é preguiçoso, não gosta de trabalhar. Pra conseguir emprego, tive que passar por filha de japonês com goiano: japonês por causa dos cabelos corridos e pretos e olhos puxadinhos; goiano por causa da pele morena e do tipo de corpo. Fico constrangida em dizer isto, infelizmente se quiser conhecer a cultura dos brancos é preciso fazer assim. Do contrário não consigo me manter na cidade. A FUNAI que diz tutelar o índio dentro da aldeia, lá fora não lhe dá condições de sobreviver.

__É uma das causas de você ter buscado o curso de Sociologia? Tentar entender um pouco essa diferença de raças?
__Sim.
__E o problema da terra - perguntei a ela - como fica sem você aqui, já que a presença é necessária para seu povo.
__É outra questão que aflige nossa comunidade. Esta área toda da roça era enorme, perdia de vista. Hoje os brancos arrumaram tanto jeito e alegam ser deles. Para nós papel não é necessário, basta a gente falar, a palavra tem valor de documento. Ela só não vale na civilização do homem branco. Basta lembrar a posse que Pedro Álvares Cabral fez aqui no Brasil. Nossa aldeia está confinada em pequenas partes de terras,  mal dá para plantar. Índio sem terra é índio sem vida.

__Os direitos dos índios, assegurados no Estatuto Indígena criada através da Lei nº 6.001, em 19 de dezembro de 1973, não estão sendo aplicados aqui!

__Olha, esse estatuto garante à nossa gente a posse permanente da terra em que habitamos; reconhece também o direito do índio de usufruir das riquezas naturais e tudo o que nela existir, mas a própria imprensa mostra, diariamente, o branco tomando terra do índio. Branco não respeita direito nosso. Ele arruma tanto papel, tanto carimbo não sei pra quê. A terra não pertence a ninguém ela é da própria terra. Dela nós nascemos, pra ela voltamos. Isso até me faz lembrar a atitude de um cacique americano ao responder ao presidente dos Estados Unidos, quando esse lhe queria comprar as terras de uma tribo indígena: "Como pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Nós não somos donos da pureza do ar, nem do resplendor da água". O que o homem branco tem conseguido com essa voracidade é tornar cada vez mais a terra um deserto.

__Conhecendo mais a cultura do homem branco, você acredita facilitar mais as coisas para o povo indígena? E mesmo deixar a tutela da FUNAI de lado?

__Não tenho certeza de nada. As situações e os fatos mudam com tanta rapidez nas suas culturas, mal posso pretender alguma coisa. Estudando vou tentar entender a civilização branca, não sei se é possível. Não deixa de ser uma aventura, mesmo porque não consigo entender o significado da palavra civilizado. Civilizada pelo que sabemos é uma sociedade que respeita a natureza, educada, que respeita as culturas e os direitos dos povos. E o que se passa na civilização branca não é isso. Agora quando chamam índio de selvagem não é porque ele nasceu na selva, querem é mostrar o lado negativo da palavra.

Não entendo, se respeitamos a natureza, dela tiramos o nosso sustento, não interferimos na cultura de ninguém, respeitamos o direito dos outros, por que somos chamados de não civilizados?

__Vamos embora - chamou o padre a uma certa distância - vou celebrar a missa das seis.

Tuíla, de cócoras na areia, rabiscava no chão alguns traços que segundo ela, em carajá seria: "Civilizado não entende modo de índio viver".

Levantei-me, bati as mãos na bunda, sacudi a areia fina e saímos calados. Fui embora como quem carrega o peso dos erros da civilização branca.