Hoje entendo por que falamos: "comi igual a um padre". A explicação pode estar na informação de que as delícias, ou grande parte delas, surgiam nos conventos e mosteiros - onde abrigavam os monges e monjas. Um casal amigo, ele português - Pedro  ela brasileira - Fátima, me trouxeram, de Portugal, um livro interessante, onde revela fatos que nos levam a saber como eram confeccionadas as receitas, conta a história do pão, nos dá receitas fantásticas de doçaria, nos assusta, a quantidade de ovos e gordura empregados na confecção dessas receitas.

A idéia passada pelo livro "Doçaria Conventual do Norte", nos dá a entender que as receitas eram criadas nos mosteiros como forma de distrair os religiosos, usando a criatividade como um bom passatempo e, como não, também, saciando o seu bom gosto pela comida. Minhas passagens pelos mosteiros, quer para estudar, visitar ou hospedar, sempre as conversas "giravam" em torno da comida. Me lembro de uma correção do superior no recreio, quando eu disse: a melhor hora é quando estamos falando, fazendo comida e lógico, comendo. A correção veio logo, antes primeiro as orações, disse o superior. Um bom e belo prato, acompanhado dos rituais é um dos bons momentos, nos mosteiros. O alimento parece tornar-se uma "dádiva do céu".

Quem quiser ter essa experiência, é só freqüentar um mosteiro, a maioria, hoje, tornou-se hospedaria, e se deixar levar pelo clima de santidade gastronômica...

 

"Uma viagem por dentro do universo alimentar é, antes de tudo, um percurso de paladares às regiões da memória. É chamada de todas as nossas capacidades físicas e intelectuais, que nos ampara através de uma concentração no nosso imaginário, tendo em atenção o nosso atual cotidiano. Nas sociedades - ditas avançadas - onde se come tanto pelo prazer como por necessidade de alimento, estar à mesa é, muitas vezes, uma forma de introspecção, procurando uma eterna e infinita forma de acomodação entre os sentidos e a maneira possível de os satisfazer."
Alfredo Saramago.

As receitas nos mosteiros, vêem da "divindade", dizia uma freira amiga, ela parece ter razão, veja: "Talvez sob a benção do patriarca Abraão que a Bíblia cita quando refere a visita que lhe fazem três anjos. Solícito e bom anfitrião pede à mulher, Sara, para preparar qualquer coisa para os anjos comerem e diz: Depressa, três medidas de flor de farinha. Amassem-na e façam bolos!" (Gênese XVIII, 18)

Esta passagem bíblica é um bom exemplo, conforme o autor do livro - Saramago: Monjas e frades parecem, hoje, entender e meditar a ordem de Abraão, quando da visita dos anjos e repromoverem as receitas, nos conventos,  a doçura da melhor dedicação ao alimento.

Os conventos e mosteiros portugueses, femininos e masculinos tiveram relevante importância na formação e fundação do reino português, alguns deles surgidos antes de 1143, Os reis perceberam nestas entidades a importância da contribuição dos religiosos e aliaram-se numa composição em busca de sua independência nas regras que compunham a Península Ibérica. Uma dessas razões foi a consolidação da culinária, dando ao país uma cultura independente e diferenciada da colcha de retalhos de diferentes povos que habitavam a Península Ibérica. A intenção dos reis era fazer de Portugal um país de cultura própria e marcante. E conseguiram! Formaram, os portugueses, uma cultura típica, exportando depois para suas colônias, e o Brasil recebeu esses privilégios. Veja abaixo a quantidade de receitas, nascidas nos conventos e mosteiros portugueses que fazem parte da cultura brasileira.

"A disponibilidade do tempo que as ingressas e os ingressos tinham no seu cotidiano permitia-lhes aliviar o tédio do internamento com as confecções, por certo animados, nas vastas cozinhas conventuais.*** A classe social donde provinham a maioria das ingressas facilitava o trânsito das receitas das suas casas senhoriais para os mosteiros que escolhiam para sua reclusão.***Não era só nos dias de festa que os doces eram confeccionados. Havia uma prática cotidiana de os fazer e sem preconceitos de custos. Os donatários e os comendatários dos conventos pertenciam a gente com poder e dinheiro e eram recebidos nas casas que patrocinavam com conforto e muitas vezes com luxo e pompa.*** Também os mosteiros eram considerados como pousada para a deslocação de pessoas importantes do reino."

O declínio da cultura gastronômica veio com a imposição do liberalismo, com leis que abandonaram e fecharam os conventos masculinos e deixaram os femininos acabarem até morrer a última freira. Proibiram o noviciado, as rendas, ajudas foram negadas, os dotes desapareceram com a ausência de novos ingressos, até quanto os conventos abriram suas portas sobrevivendo de sua produção (1834). A doçaria fazia parte desta nova sobrevivência, mas não só, porque sempre foi uma característica dos mosteiros.

Nesta nova empreitada dos monásticos, os doces conventuais tornaram-se um novo impulso, e passou a despertar o interesse até em quem os desconheciam.

"As receitas começaram a ser divulgadas, depois de tantos anos de secretismo, e fixaram-se nas casas particulares e em estabelecimentos que as aproveitaram para com elas ganharem fama e dinheiro.*** Muitas receitas que ainda hoje são celebrizadas vieram dos mosteiros e dos conventos, depois da aragem liberal."

Novos tempos, incentivados pelos religiosos, as "tias", entusiasmadas e sedentas de colocarem a mão na massa, saíram de casa para adquirirem "pontos a comer" com as receitas vindas dos conventos, enriquecendo suas receitas familiares, adaptando ao meio, refazendo-as.

"As receitas antigas, ou as receitas de convento, continuam a atemorizar pelas quantidades exageradas que eram sugeridas e pelo número de ovos que levavam. Quando se fala em 20 gemas é quase com um sentimento de pecado, não tanto pelo mal, ou bem, que podem fazer em relação à saúde, mas, inexplicavelmente, pelo valor que representam!*** Restam ao oficiante da doçaria o trabalho de calcular tempos de lume (fogo), de dirigir, como um chefe de orquestra, os vários instrumentos, com a harmonia necessária para fazer da sua obra uma obra-prima. Se quiser, durante a confecção do seu doce conventual, pode encaminhar o seu pensamento para as monjas dos mosteiros, vestais de um prazer supremo - a doçura - que numa alquimia sagrada transformavam a farinha, os ovos e o açúcar em portentosos objetos de prazer."

Irmã Dulce

Explicação: 

O uso exagerado de gemas de ovos nas receitas dos conventos tem uma explicação: dizem que as freiras usavam as claras para engomarem suas palas e véus (brancos). Taí, quem sabe, o emprego das gemas nas delícias feitas nos mosteiros... Agora, gostaria de saber como elas camuflavam o cheiro do ovo?!!

As receitas que vamos publicar abaixo são do livro citado. Serão respeitadas, originalmente, isto não quer dizer que possamos alterá-las nos excessos. Para entender as receitas, verifique os tópicos abaixo, referentes aos pontos do açúcar: Derrete-se o açúcar com metade de seu peso em água.

Ponto de pasta: Deixe ferver a calda de açúcar uns instantes e depois mergulhe a escumadeira, que deverá apresentar uma camada pouco espessa, que deve acompanhar os movimentos que fizer.

Ponto de cabelo: Molhe o indicador e o polegar na calda, abra e feche os dedos para que formem pequenos fios que depois deve quebrar.

Ponto de pérola: Proceda da mesma forma como no ponto de cabelo, mas o fio deverá apresentar-se mais espesso e deixar uma gota na extremidade.
Ponto de espadana: Mergulhe a escumadeira na calda e deixe que se firmem lâminas quando retirar.
Ponto de rebuçado: Deite um pouco de calda num copo de água fria e no fundo do copo deve formar um monte escuro e quebradiço. Também pode mergulhar os dedos na calda e depois de retirá-los deixe arrefecer um pouco e tentar enrolar e trabalhar a calda como se fosse massa.
Ponto de areia: Quando a calda, depois de ferver, começa a secar e a depositar-se nas paredes do tacho.

Foi fundado pelo filho bastardo do 1º Conde de Barcelos. Pessoas de grandes posses. Habitavam os filhos das famílias mais ricas do Norte de Portugal. Possuía uma igreja gótica do século XIV. A riqueza deste convento e a nobreza de professas, criaram uma doçaria rica e elaborada, tornando-o um dos mosteiros mais célebres pelas suas especialidades doceiras. As freiras eram clarissas da Ordem de São Francisco da Província de Portugal da Observância. As receitas:

Sapatetas: Prepare 250g de açúcar em ponto de espadana e junte 100g de amêndoas raladas e 10 gemas de ovos, previamente batidas. Leve esta massa ao lume até fazer pondo de estrada no fundo do tacho e deite, depois de arrefecida, em pequenas hóstias que se enrolam. Polvilhe um tabuleiro com bastante farinha e leve as sapatetas ao forno a dourar ligeiramente. Depois, passe novamente por açúcar em ponto de espadana, tendo o cuidado de as deixar em cima de uma rede para escorrerem bem e secarem.

Beijos de Freira: Misture 250g de açúcar em ponto de espadana com 75g de farinha, 200g de amêndoas raladas e 8 gemas de ovos. Leve esta massa ao lume até engrossar e depois faça bolas pequenas, que deve passar por açúcar.

Pastéis de Santa Clara - Meias-Luas: Faça a massa com 300g de farinha de trigo com fermento, 3 colheres de sopa de açúcar e 3 colheres de sopa de manteiga. Deite uma pitada de sal. Estenda a massa com um pires de tamanho médio voltado para baixo, contra a massa, corte à volta com carretilha. Deite dentro o recheio que é feito da seguinte maneira: 250g de açúcar em ponto de estrada ao qual deve juntar 250g de amêndoas raladas e 10 gemas de ovos. Engrosse ao lume. Deite uma porção deste recheio de um dos lados da massa cortada em circunferência, de forma que se possa dobrar e ficar em meia-lua.
Frite os pastéis em azeite no qual deve deitar, depois de quente, uma casca de limão. Depois de fritas, polvilhe as meias-luas com açúcar.

Rosquinhas: Leve 250g de açúcar ao ponto de espadana e junte 250g de amêndoas raladas. Depois de em misturadas, deite 12 gemas de ovos e 3 colheres de farinha de trigo com fermento. Depois de bem batida, leve esta mistura ao lume até fazer ponto de estrada no fundo do tacho. Molde as rosquinhas com a massa depois de arrefecida e leve ao forno a corar ligeiramente. Passe depois as rosquinhas por açúcar em ponto de espadana.

Tolos: Bata 12 gemas de ovos com 250g de açúcar. Depois de muito bem batida esta massa, deite 300g de farinha de trigo com fermento. Volte a bater muito bem. Leve ao lume e deixe que a massa coza. Em pequenas hóstias deite porções desta massa e leve ao forno a alourar.

Cavacas: Junte 250g de açúcar com 15 gemas de ovos e a casca de um limão. Bata muito bem. Depois junte 300g de farinha de trigo com fermento e envolva bem a farinha com a massa de açúcar e as gemas. Com a mão, agarre bocados de massa que deita num tabuleiro polvilhado de farinha. Leve ao forno até cozer. Depois de saírem do forno passe as cavacas por açúcar em ponto de espanada.

Sonhos: Num tacho leve ao lume meio litro de água, meio litro de leite, 250g de manteiga e uma pitada de sal. Quando estiver tudo a ferver junte 600g de farinha de trigo com fermento e mexa muito rapidamente com uma colher de pau. Quando a massa ficar como uma bola, retire do lume, e com as mãos, vá deitando e amassando ao mesmo tempo 18 ovos.
Frite os sonhos em azeite ou numa mistura de azeite e óleo, e para isso utilize duas colheres grandes de sopa para retirar a massa, passando a porção retirada de uma colher para a outra, para melhor despegar quando deitar na frigideira. Deixe fritar lentamente, devendo bater-lhes em cima, com a colher virada ao contrário, para que os sonhos se voltem e fritem de todos os lados.
Devem ser servidos polvilhados de açúcar e canela ou com uma calda de açúcar em ponto de espanada que deve ser deitada numa tigela onde estejam já duas ou três gemas de ovos batidas.

Rebuçados de ovos: Leve a ponto de espadana 500g de açúcar. Depois de arrefecida a calda, junte 24 gemas de ovos. Leve novamente ao lume até os ovos cozerem e engrossarem a massa. Depois de arrefecida divida em pequenos bocados de forma retangular. Polvilhe estes rebuçados com açúcar e depois mergulhe numa calda feita de açúcar em ponto de espadana. Retire rapidamente e deixe arrefecer antes de serem embrulhados em papéis de várias cores.

Empadas: Faça uma massa com 300g de farinha de trigo com fermento, 3 colheres de sopa de açúcar e 3 colheres de sopa de manteiga. Depois de estendida, forre umas formas pequenas previamente untadas de manteiga e polvilhadas com farinha. Para o recheio, leve 300g de açúcar a ponto de estrada e depois junte 250g de amêndoas raladas e uma colher de farinha de trigo. Depois de arrefecida esta massa, deite 12 gemas de ovos e leve novamente ao lume a cozerem.
Deite porções deste recheio nas formas e cubra com tampa de massa. Leve ao forno a cozerem e a dourarem.

Sopa Dourada das Freiras de Santa Clara: Receita manuscrita por uma freira de Santa Clara de Vila do Conde, tal como está redigida: Para kilo e meio de assucar 24 gemmas de ovos, com um quarto de amendoa doce, meio kilo de chila, 50 grammas de cidrão e 300 grammas de pão de ló, que deve ser partido às fatias finas. Vai o assucar ao lume para o por em meio ponto de espadana, deitando-se-lhe algumas gôttas de água de flòr de laranjeira.
Achando-se o assucar n'esse meio ponto retira-se do lume e molham-se nelle as fatias de pão de ló, que de põem a escorrer em peneira ou n'um prato. O assucar volta ao lume para chegar ao ponto de espadana, deitando-se o cidrão muito cortado aos bocadinhos e bem assim a chila. Deixa-se ferver um pouco e deita-se-lhe então a amendoa, que deve ser bem pisada, deixando-se ferver mais um pouco. Tira-se então do lume para arrefecer um quasi nada. Depois vai-se deitando esta calda aos poucos nas gemmas de ovos, que devem estar bem batidas. Tem de se mexer sempre, sem parar, porque se o não fizerem, coalha. Deixa-se engrossar até fazer rugas e deita-se depois no prato ou travessa que tem as fatias, que devem ficar bem cobertas. Compõem-se com um ferro e deita-se-lhe canela.

Pão Espécie: Amorne 3 dl de mel e junte 24 gemas de ovos, mexendo tudo muito bem. Levante as claras das 24 gemas em castelo e, a meio de batê-las, junte 500g de açúcar, continuando a bater até ficar em castelo forte. Vá deitando as claras, aos poucos, à massa feita anteriormente, ao mesmo tempo que se vai juntando também 600g de farinha de trigo com fermento. Deite esta massa em formas untadas com manteiga e polvilhadas com farinha e leve ao forno a cozer. Por cima deite lâminas muito finas de amêndoas. 

Construído em 1518 pelo rei D. Manuel, destinado a receber religiosos beneditinos. Seguem as receitas:

Manjar Real: Tome uma porção de carne de peito de uma galinha cozida e desfie-a muito bem. Meta-a depois num tacho juntando miolo de pão ralado, 150g de amêndoas raladas e 800g de açúcar em ponto de espadana. Leve a lume brando mexendo bem para que engrosse. Deite numa travessa e sirva.

Trouxas-de-ovos: Leve 1 kg de açúcar a ponto de fio brando e quando estiver a ferver, deite com uma colher uma porção de gemas que devem ter sido passadas por uma peneira. Deixe ficar no lume até que fiquem bem passadas dos dois lados. Tire da calda com uma escumadeira e deixe escorrer. Proceda assim até acabar as gemas que quiser fazer. Apare os bocados de forma a que foquem quadrados e depois enrole até ficarem com a forma de trouxas. Disponha numa travessa e regue com a calda que sobrar do açúcar em que foram feitas. Para 1 kg de açúcar deve contar com 12 gemas de ovos e nesta proporção deve calcular a quantidade.

Bolo de Mel: Bata 500g de açúcar com doze gemas de ovos, duas chávenas de chá de azeite e duas chávenas de chá de mel. Depois de bater bem, junte as raspas de um limão e duas colheres de chá de canela. Bata as claras das doze gemas em castelo e junte com 500g de farinha de trigo com fermento. Unte uma forma com manteiga, polvilhe com farinha e leve ao forno.

Ovos em Fio: Deite num recipiente 24 gemas de ovos e bata com a lâmina de uma faca, ligeiramente, e passe depois por uma peneira. Leve ½ kg de açúcar a ponto de pérola e deite as gemas por um funil de ponta muito fina. Vá deitando água na calda para que o ponto fique sempre baixo. Tire os fios com uma escumadeira mas devem ser separados fora do tacho, à mão, um a um. A calda que fica leve-a a um ponto mais alto e deite-a por cima dos ovos em fio.

Pão-de-Ló de São Bento: Bata muito bem 10 ovos inteiros com 300g de farinha de trigo com fermento, de maneira que a massa fique bastante clara. Junte 300g de açúcar e mais 250g de farinha e continue a bater. Deve bater lentamente até conseguir uma massa muito ligada. Unte uma forma com manteiga, polvilhe com farinha e leve ao forno muito brando.

Fundado nos meados do século VI, em 1147 foi doado à Sé de Coimbra. Os beneditinos estiveram nele até por volta de 1200. A filha de D. Sancho I escolheu este mosteiro para professar, após a anulação de seu casamento com Afonso IX de Leão, nesta época passou a freiras. Foi um nos mosteiros de maior importância do Norte de Portugal. Receitas:

Pastéis do Lorvão: Leve a ponto de espadana 500g de açúcar juntando depois 150g de amêndoa ralada. Outra vez no lume, junte 4 colheres de sopa de farinha de trigo com fermento. Deixe ferver e retire para arrefecer. Junte 15 gemas de ovos, três claras e a raspa de meio limão. Polvilhe com um pouco de canela. Unte formas pequenas, como de queijadas, polvilhe com farinha e encha com o recheio. Leve ao forno a cozer e depois de cozidos polvilhe-os com açúcar.

Ovos Moles: Leve 500g de açúcar até ao ponto de cabelo. Deixe arrefecer completamente. Bata 24 gemas de ovos com uma faca e vá juntando lentamente à calda do açúcar. Deve utilizar uma colher de madeira e juntar os ovos muito lentamente e com movimentos suaves para que a ligação fique perfeita.

Doce de Amêndoas: Leve 500g de açúcar a ponto de espadana e junte 400g de amêndoas raladas muito finas, mexendo muito bem até a ligação. Deixe arrefecer um bocado e, ainda com a massa morna, junte 10 gemas de ovos. Leve ao lume para os ovos cozerem e a massa engrossar.

Doce de Laranja: Leve 500g de açúcar a ponto de espadana e junte as gemas de 12 ovos. Retire do lume e quando a massa estiver morna junte o sumo de quatro laranjas e as claras de 12 gemas bem batidas. Mexa tudo muito bem até obter uma boa ligação. Leve novamente o tacho ao lume durante cerca de dez minutos, sempre a mexer. Sirva em travessa, polvilhado com canela e decorada com algumas cascas de laranja, previamente passadas por açúcar em ponto de espadana.

Manjar Divino: Demolhe em água fria 100g de côdeas de pão. Leve ao lume 1 kg de açúcar até atingir o ponto de xarope. Misture depois 100 g de miolo de amêndoa e o pão escorrido da água. Mexa sempre com uma colher de pau e quando a massa fizer ponto de estrada no fundo do tacho, retire do fogo. Bata 20 gemas de ovos e junte uma colher de chá de canela. Misture as gemas com a massa e leve novamente ao lume para que as gemas cozam. Sirva em travessa grande ou em covilhetes de barro.
Existe uma variante da receita deste mesmo Mosteiro, na qual as 100g de pão são substituídas por farinha de trigo com fermento.

Fatias do Conde: Corte o pão em fatias com a grossura de 1cm e embeba em leite. Retire e deixe levemente escorrer. É preferível utilizar pão de trigo. Bata ovos inteiros e deite um corpo pequeno de aguardente. Mexa tudo. Embeba as fatias novamente, agora nos ovos com a aguardente, e depois frite em azeite bem quente. Regue com uma calda de açúcar feita em ponto de cabelo.

Súplicas: Numa tigela grande deite 500g de açúcar e faça um buraco no meio onde deita três ovos inteiros, gema e claras. Mexa com uma colher de pau e depois misture mais 4 gemas e uma clara e vá mexendo até obter uma massa bastante espessa. Junte a esta massa 500g de farinha de trigo com fermento e mexa muito bem. Com esta massa tenda as súplicas que vão ao forno, em tabuleiro untado com manteiga e polvilhado com farinha.

Beijinhos da Freira: Leve 500g de açúcar a ponto de espadana e, quando atingir o ponto, deite 300g de amêndoas raladas. Mexa muito bem e retire do lume para arrefecer a massa. Deite depois 12 gemas de ovos e uma colher de chá de canela. Deite também um copo pequeno de vinho do Porto. Volta ao lume para os ovos cozerem e retire quando a massa fizer ponto de estrada no fundo do tacho. Deixe arrefecer completamente. Com as mãos tenda uns quadradinhos que coloca em cima de pequenas hóstias umedecidas. Leve depois ao forno, em lata polvilhada de farinha, para alourarem.

Bolo das Infantas: Junte 500g de açúcar com 16 gemas de ovos, duas claras, 500g de farinha de trigo com fermento, uma colher de chá de canela e raspas de um limão. Junte 100g de manteiga. Mexa tudo muito bem até obter uma massa com espessura, mas que corra. Unte uma forma com manteiga, polvilhe com farinha e leve ao forno a cozer.

Bolo-Podre do Lovrão: Damos a receita conforme manuscrito de uma freira, descendente de família que esteve ligada ao Mosteiro do Lovrão.

Tomam-se dois litros de farinha de trigo, meio kilo de assucar e posto em ponto de pastilha, deitam-se 9 decilitros de bom azeite e 20 grammas de amêndoas bem pisadas, cravo, herva doce, canela e salsa; quando isto ferver bastante, vae-se deitando farinha, mexendo-se até estar bem cozida, pronta assim, deita-se n'um alguidar e vae-se mexendo até que se possa amassar: ao amassar-se junta-se o fermento pouco a pouco feito em pedacitos, mas sempre amassando, quando estiverem prontos, cobrem-se até estarem lêvedos; fazem-se então os bolos apertando bem as mãos e pondo-se nas tigelas as formas, vão ao forno.

Derriços: Misture 500g de açúcar, 6 ovos inteiros, gemas e claras, uma colher de chá de canela e o sumo de um limão. Depois de tudo bem misturado, deite 500g de farinha de trigo com fermento e volta a bater a massa toda. Unte formas pequenas com manteiga, polvilhe com farinha e encha com a massa e leve ao forno.

Fundado em 1154 pelo Bispo D. João Anaia, sendo D. Sancha Martins sua 1ª abadessa. Foi extinto em 1896. Veja as receitas:

Nabada de Semide: É uma das receitas conventuais mais antigas que se conhecem e também a que mais celebrizou o convento.
Descasque os nabos, corte às rodelas e coza em água temperada com sal. Leve 500g de açúcar a ponto de pasta e deite depois 300g de amêndoas pisadas. Mexa muito bem e junte 100g de farinha de trigo com fermento. Junte as rodelas de nabo cozidas, um pouco de almíscar e uma colher de chá de água de rosas. Mexa muito bem e deixe ferver durante cinco minutos. Sirva numa travessa.

Nógado de Semide: Aloure no forno 300g de amêndoas e depois corte em fatias muito finas. Num tacho deite 250g de açúcar e o sumo de um limão. Quando o açúcar estiver derretido junte as amêndoas e mexa esta massa até ficar amarelo torrada. Deite depois esta massa com um limão para não queimar os dedos. Quando puder trabalhar a massa dê-lhe o feitio que quiser. O nógado deve ser comido uma ou duas horas depois de ser moldado.

Talhadas: Leve 500g de açúcar a ponto de pasta e deite 14 gemas de ovos, 100g de farinha de trigo com fermento, uma colher de chá de canela e 250g de amêndoas raladas. Junte igualmente 100g de doce de cidra, ou cidra cristalizada cortada aos bocados pequenos. Junte tudo e leve polvilhado com farinha. À saída do forno corte talhadas e polvilhe de canela e açúcar.

Creme Frito das Freiras: Ponha num tacho 100g de farinha de trigo com fermento, 5 ovos com gemas e claras, mais duas gemas e meio litro de leite. Leve tudo a ferver cerca de 8 minutos. Deite depois num tabuleiro e deixe esfriar. Corte em palitos, passe por pão ralado e frite em manteiga.

Queijo Doce: Leve 1 kg de açúcar a ponto de pasta e depois deite um pires bem cheio de queijo ralado. Junte 4 gemas de ovos e deixe cozer até tomar novamente ponto. Pode guardar este doce numa compoteira durante algumas semanas.

Reformado em 1533, pertenceu as clarissas claustrais. Receitas:

Manjar Branco: Desfaça 500g de farinha de trigo com fermento em litro e meio de leite frio, ligeiramente temperado com sal. Ferva 500g de açúcar em meio litro de leite. Junte as duas misturas e leve ao lume até que engrossem. O manjar deve ser bordado por açúcar em ponto de pastilha e deve aguardar algumas horas antes de servir.

Toucinho de São Francisco ou Toucinho-do-Céu: Leve 500g de açúcar a ponto de cabelo e, depois de arrefecer, junte 125g de amêndoas raladas. Deite depois 15 gemas de ovos e três claras e leve novamente ao lume até que os ovos cozam. Retire do lume e junte duas colheres de sopa de farinha de trigo com fermento. Envolva bem. Deite esta massa numa forma untada e polvilhada de farinha e leve ao forno a corar.

Arroz-Doce das Clarissas: Ferva ½ kg de arroz num litro de água e quando estiver com a água absorvida deite 500g de açúcar e um litro de leite. Deixe continuar a ferver em lume brando e vá deitando, aos poucos, mais um litro de leite. Adicione um pau de canela e as cascas de meia laranja. Deve continuar a mexer de forma a que o arroz fique quase desfeito e meio líquido. Deixe arrefecer numa travessa funda e faça enfeites com canela em pó.

Pastéis de Milho: Faça uma massa escaldando 1 kg de farinha em 150g de banha de porco e um litro de azeite. Vá amassando, deitando um pouco de água morna quando for necessário e tempere com sal. Quando a massa estiver bem sovada deixe descansar durante uma ou duas horas.
Estenda esta massa da grossura que desejar e, com uma carretilha à volta de um pires voltado para baixo, em cima da massa, corte rodelas nas quais deita o recheio que é feito da seguinte maneira: coza meio litro de milho e passe para que fique sem cascas. Leve 500g de açúcar a ponto de espadana e depois deite a massa de milho. Retire do lume e junte 10 gemas de ovo e uma casca de limão. Mexa bem e nesta altura adicione duas colheres de sopa de banha de porco. Depois de posto o recheio nas rodelas de massa, dobre em meia lua. Frite em azeite e polvilhe, ainda quentes, com açúcar.

Sopa Dourada das Freiras de Santa Clara do Porto: É a receita mais conhecida deste convento.
Embeba fatias de pão-de-ló vulgar em calda de açúcar em ponto de espadana na qual deve ter deitado raspas de meia laranja. Retire as fatias e coloque numa travessa. Na mesma calda de açúcar que serviu para embeber as fatias de pão-de-ló deite pedaços muito pequenos de chila, de cidrão (se tiver dificuldade em encontrá-lo pode substituir por cascas de limão cristalizadas) e deite também 250g de amêndoas raladas. Deixe ferver e depois de retirar do lume junte 20 gemas de ovos. Leve novamente esta massa ao lume para cozer os ovos e deixe engrossar. Deite depois por cima das fatias de pão-de-ló que já estão na travessa.

D. João IV patrocinou as reformas em 1533. Sendo o corpo da rainha Santa Isabel transferido para o local.

Pastéis de Santa Clara: Faça uma massa com 500g de farinha de trigo com fermento e 200g de manteiga. Utilize a água morna que for necessária para que a massa fique o mais fina possível. Corte a massa de uma maneira que os pastéis fiquem oblongos e recheie com doce de ovos feitos com 500g de açúcar em ponto de pasta e 14 gemas.
Pinte os pastéis com gema de ovo e leve ao forno. Depois de saírem polvilhe-os com açúcar.

Existem várias receitas de pastéis, oriundas de vários mosteiros de clarissas mas os do Mosteiro de Coimbra vão ao forno e os outros são fritos.

Arrufadas de Coimbra: Amasse 1kg de farinha de trigo com fermento, 5 ovos inteiros, 250g de açúcar e um pouco de água morna. Se quiser pode juntar um pouco de leite para a massa ficar mais fina. Deite 100g de manteiga derretida e continue a amassar. Tape com um pano e deixe levedar a massa durante a noite. Tenda depois no dia seguinte as arrufadas em forma de pequenas bolas, com cerca de 4 cm de diâmetro e deixe levedar de novo até dobrarem de volume. Pincele com gemas de ovo e leve ao forno em tabuleiros.

Lampreia de Ovos: Faça capas e fios de ovos. As capas de ovos são feitas com açúcar em ponto de cabelo no qual deita as gemas com uma colher grande de maneira a que as gemas cubram uma superfície grande ao cima da calda. Retire com uma escumadeira para uma rede onde devem escorrer. Os fios de ovos são feitos na mesma calda, mas utilizando um funil muito fino ou qualquer outro utensílio que faça com que as gemas corram em fio para cima da calda. Retire com a escumadeira e depois, à mão, separe os fios, um a um.
Para fazer a lampreia, coloque os fios em forma de um 6, ligeiramente aberto, numa travessa, procurando que a cabeça fique mais alta e vá diminuindo aos poucos até a cauda. Coloque uma pêra cristalizada à frente e cubra os fios e a pêra com capas de ovos dando um corte na capa que recobre a pêra para simular a boca da lampreia. Para imitar os dentes pode utilizar açúcar em ponto de pasta, e assim também deverá fazer para imitar os olhos, utilizando uns corintos. Deve decorar a lampreia com restos dos fios de ovos.

Broas de Milho de Santa Clara: Prepare 2 kg de farinha de milho, 1,5 kg de farinha de trigo com fermento, 2 kg e meio de açúcar e 1 litro de azeite. Junte 3 cravos-da-índia e erva-doce a gosto. Amasse tudo muito bem, tempere com sal e forme as broas. Leve ao forno. Pode reduzir a receita de forma proporcional nas quantidades indicadas.

Mães-Bentas: Misture 1 kg de farinha de arroz com 250g de manteiga derretida. Junte 300g de açúcar, duas claras de ovos e 14 gemas de ovos. Deve mexer bem e depois juntar a água de um coco ou cerca de 50g de coco ralado. Trabalhe bem esta massa que deve deitar numa forma untada e polvilhada de farina. Leve ao forno a cozer.

Biscoitos de Coimbra: Deite numa grande tigela 2dl de leite, uma colher de sopa de canela, 100g de manteiga e 250g de açúcar. Junte depois a farinha de trigo com fermento, necessária para amassar até que a mistura fique consistente. Forme depois biscoitos que leva ao forno em latas untadas com manteiga e polvilhadas com farinha.

Pudim de Ovos de Coimbra: Leve 500g de açúcar ao ponto de pasta fraco e quando estiver morno junte ligeiramente 16 gemas batidas com 25g de manteiga derretida. Deite esta mistura numa forma untada com manteiga e leve ao forno a cozer. Deve desenformar depois de frio.

EM BREVE: Mais informações sobre a comida de mosteiro